terça-feira, 22 de maio de 2018

49 - Teófilo de Antioquia (†181) Segundo Livro a Autólico (Capítulo 1 a 4)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Segundo Livro a Autólico (Capítulo 1 a 4)


Conforme explicamos anteriormente, Teófilo de Antioquia (?-186), Teólogo, escritor cristão, apologista e Padre da Igreja escreveu  três cartas em defesa aos cristãos que continuavam a ser perseguidos no Império Romano. Elas foram endereçadas a um sujeito chamado Autólico, uma espécie de pseudônimo que encarna e personaliza um tipo de pessoa pagã que não devia ser rara nos finais do século II: pessoa culta, conhecedora de outras pessoas igualmente cultas e até de alguns cristãos a quem repudiava por achar as suas doutrinas demasiado simplistas. Nesta obra Teófilo continua a escrever sempre com enorme elegância e clareza de linguagem, as críticas feitas ao cristianismo e convida o seu leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, de modo acérrimo a moral exemplar dos cristãos. 

Capítulo I – Introdução
Excelente Autólico, há dias tivemos uma conversa, na qual tu me perguntaste qual era o meu Deus. Expus brevemente minha religião e tu prestaste atenção ao meu discurso. Despedindo-nos, fomos para casa na melhor amizade, embora no começo me tenhas tratado com dureza. Sabes e lembras que consideravas loucura o nosso discurso. Depois disso tu me convidas… Mesmo sendo novato na arte de falar, quero também agora, através deste escrito, demonstrar-te de modo mais completo a inutilidade do teu afã e a inanidade da religião que te retém; esclarecerei a verdade através de algumas histórias do teu próprio grupo, as quais lês, mas que talvez ainda não tenhas entendido.

Capítulo II – Os ilogismos do paganismo: Idolatria
Com efeito, parece-me ridículo que cortadores de pedra, oleiros, pintores e fundidores modelem, pintem, esculpam, fundam e fabriquem deuses, os quais, enquanto estão nas mãos dos artífices, não são de maneira alguma apreciados; contudo, quando alguém os compra e os expõe no que chamam de templo ou em alguma casa, então são adorados não somente por aqueles que os compraram, mas aqueles mesmos que os fabricaram e venderam acorrem com grande fervor, com aparato de sacrifícios e libações para adorá-los, considerando-os deuses, sem levar em conta que continuam sendo as mesmas coisas por eles fabricadas: pedra, bronze, madeira, cor ou qualquer outro material. Algo parecido acontece convosco ao ler as histórias e genealogias dos chamados deuses. Enquanto ledes seus nascimentos, os considerais como homens; mas depois lhes dais nomes de deuses e lhes prestais culto, sem perceber nem compreender que tais como lestes que nasceram, tais de fato existiam.

Capítulo III – Os ilogismos do paganismo: Antropomorfismo
Ao menos os deuses antigos, se é certo que nasceram, podia-se ver que tinham uma longa descendência. Agora, porém, como se pode mostrar a descendência dos deuses? Com efeito, se antes geravam e nasciam, é evidente que agora também teriam que nascer deuses gerados. Do contrário, ter-se-á que considerá-los bem fracos, seja porque se tornaram velhos e por isso não geram, seja porque morreram e não permanece nenhum rastro deles. De fato, se os deuses antes geravam, teriam que gerar também agora, como vemos que os homens geram. Além disso, os deuses teriam que ser mais numerosos do que os homens, como diz a Sibila: “Se os deuses geram e continuam imortais, os deuses nascidos seriam em maior número que os homens, e já não haveria lugar para os mortais ficarem”.
Com efeito, se os filhos gerados pelos homens, que são mortais e de vida curta, existem até o presente e não cessam de nascer outros homens, e por isso as cidades e aldeias se multiplicam e até os campos são habitados, quanto mais os deuses que, segundo os poetas, não morrem, não deveriam gerar e nascer, de acordo com o que dizeis a respeito do nascimento ou geração dos deuses?
Ainda mais: Como é que o monte chamado Olimpo era antes habitado por deuses e agora se encontra deserto? Por que antes Zeus morava no monte Ida, e se sabia que ele morava ali através de Homero e outros poetas, e agora não se sabe onde anda? Como é que não estava em toda parte, mas se encontrava em um ponto determinado da terra? Ou ele não se interessava pelo resto, ou não era capaz de estar em toda parte e prover tudo. Se ele estava, por exemplo, no Oriente, não estava no Ocidente. No entanto, é próprio do Deus altíssimo e onipotente e verdadeiro Deus não só estar em toda parte, mas também ver e ouvir tudo e não ser contido por nenhum lugar. Do contrário, o lugar que o contivesse seria maior do que ele, pois o continente é sempre maior do que o contido. De fato, Deus não é contido, mas é o lugar de todas as coisas. Por que Zeus abandonou o Ida? Morreu ou não gostava mais desse monte? Então para onde foi? Para os céus? De jeito nenhum. Dir-me-ás que foi para Creta? Sim, ali se mostra até hoje o seu sepulcro. Também podes dizer que partiu para Pisa, onde até hoje é enaltecido pelas mãos de Fídias. Passemos, porém, aos escritos dos filósofos e poetas.

Capítulo IV – As contradições dos escritores profanos
Alguns do Pórtico, ou estóicos, chegam a negar totalmente que Deus existe ou, se existe, afirmam que Deus não se preocupa com ninguém, mas consigo mesmo. E nisso se manifesta totalmente a insensatez de Epicuro e Crisipo. Outros dizem que todo o universo se rege pelo acaso, que o mundo é incriado e a natureza é eterna, e até se atreveram a dizer que não existe absolutamente providência de Deus, mas que o único Deus é a consciência de cada dia. Outros estabelecem como dogma que Deus é o espírito que penetra tudo. Quanto a Platão e sua escola, certamente confessam que Deus é incriado e Pai e Criador do universo; em seguida, porém, supõem que a matéria é incriada como Deus e que ela tem a mesma idade de Deus. Mas se, conforme os platônicos, Deus é incriado e a matéria também o é, o Criador de todas as coisas já não é Deus, nem, seguindo-os, se percebe a monarquia ou unicidade de Deus. Além disso, como Deus é imutável por ser incriado, se também a matéria fosse incriada seria pelo mesmo motivo imutável e parelha de Deus. Com efeito, o criado é variável e mutável; o incriado é invariável e imutável. E o que de maravilhoso haveria se Deus tivesse feito o mundo de matéria preexistente? Também um artífice humano, tomando uma matéria qualquer, faz dela o que quer. Mas o poder de Deus se manifesta em fazer o que quer do que não existe, de modo que ninguém, a não ser Deus, pode dar alma e movimento. Um homem fabrica uma estátua, mas não pode infundir razão, alento ou sentido ao que foi feito por ele. Deus, porém, tem sobre o homem a vantagem de fazer um ser racional, com alento e sentido. Sendo Deus mais poderoso que o homem nessas coisas, assim também o é em fazer do nada e ser criador de tudo o que existe, quando ele quiser e como quiser.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

48 - Teófilo de Antioquia (†181) Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 11 ao 14).


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 11 ao 14)



Capítulo XI – Atitude para com o imperador
Por isso, eu honraria melhor ao imperador, embora não o adorasse, mas rogasse por ele. Adorar, eu adoro apenas ao Deus real e verdadeiramente Deus, pois sei que o imperador foi criado por ele. Então me perguntarás: “Por que não adoras o imperador?” Porque não foi constituído para ser adorado, mas para que se lhe tribute a legítima honra. Com efeito, ele não é Deus, mas homem estabelecido por Deus, não para ser adorado, mas para julgar com justiça. De certo modo, Deus lhe confiou uma administração e assim como ele próprio não quer que se chame de imperadores os que ele estabeleceu sob o seu poder, pois o nome “imperador” é particular seu, e a ninguém é permitido chamar-se dessa forma, da mesma forma a ninguém é lícito adorar senão a Deus. Portanto, ó homem, estás completamente equivocado em tudo. Honra ao imperador por tua adesão a ele, submetendo-te a ele, orando por ele. Fazendo isso, realizarás a vontade de Deus. A lei divina diz: “Meu filho, honra a Deus e ao rei, e não sejas desobediente a nenhum dos dois, pois eles se vingarão repentinamente de seus inimigos”.

Capítulo XII – O nome de cristão
Quanto ao fato de zombares de mim, chamando-me cristão, não sabes o que dizes. Primeiramente, o ungido é agradável e útil, e não tem nada de ridículo. Com efeito, qual navio pode ser útil e salvo se antes não for ungido? Que torre ou casa possui bela forma ou é útil se antes não for ungida? Qual homem, entrando no mundo ou indo ao combate, não se unge com azeite? Qual obra ou ornato pode ter bela aparência, se não é ungida e não se torna brilhante? Por fim, todo o ar e toda a terra sob o céu são de certo modo ungidos pela luz e pelo vento. E tu não queres ser ungido com o óleo de Deus? Nós nos chamamos cristãos porque nos ungimos com o óleo de Deus.

Capítulo XIII – Imagens da ressurreição na natureza
Retornemos à tua negação da ressurreição dos mortos. Tu dizes: “Mostra-me apenas um morto que tenha ressuscitado e eu acreditarei.” Em primeiro lugar, o que há de maravilhoso em creres naquilo que viste acontecer? Por outro lado, crês que Héracles, depois de queimar-se vivo, ainda vive, e que Asclépio, que foi fulminado, ressuscitou. E não crês no que Deus te diz? Talvez, se te mostrasse um morto ressuscitado e vivo, não acreditarias. Ora, Deus te mostra muitos indícios, para que creias nele. Se queres, considera a morte das estações, dos dias e das noites, como morrem e ressuscitam. Vê. Não há também uma ressurreição para as sementes e frutos, e isso para a utilidade dos homens? Assim, por exemplo, um grão de trigo ou de qualquer outra planta, uma vez jogado na terra, primeiro morre e se desfaz, depois ressuscita e se transforma em espiga. Do mesmo modo, segundo a ordenação de Deus, a natureza das árvores e plantas não produz, conforme os tempos, os seus frutos a partir do oculto e invisível? Ainda mais: às vezes um pardal ou outro pássaro qualquer engole a semente de uma pereira, de uma figueira ou de outra árvore, depois voa para um monte pedregoso ou sobre um túmulo, aí defeca e a semente que fora antes tragada e que passara por tão grande calor, retorna e se transforma em uma árvore.
A sabedoria de Deus realiza tudo isso para demonstrar, mesmo por esses exemplos, que ele é Deus poderoso para realizar a universal ressurreição de todos os homens. Se queres contemplar um espetáculo mais maravilhoso, que acontece para demonstrar não a ressurreição de coisas terrenas, mas das celestes, considera a ressurreição da lua, que acontece a cada mês, como ela se consome, morre e ressuscita novamente. Escuta ainda: a obra da ressurreição se realiza em ti mesmo, embora tu, ó homem, a desconheças. Provavelmente alguma vez, ficando doente, perdeste tuas carnes, tuas forças e aparência; ao recobrar a saúde, por misericórdia de Deus, recuperaste novamente teu corpo, tua força e tua aparência. E como não sabes para onde foram tuas carnes ao desvanecer-se, também não sabes como se formaram e de onde vieram. Tu dirás: “Dos alimentos e dos líquidos transformados em sangue”. Muito bem! Isso, porém, também é obra de Deus, que assim dispôs, obra dele e de nenhum outro.

Capítulo XIV – Exemplo pessoal de Teófilo
Portanto, não sejas incrédulo, mas acredita. Eu também não acreditava que isso existisse, mas agora, depois de refletir muito, eu creio; ao mesmo tempo, li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, os quais, inspirados pelo Espírtio de Deus, predisseram o passado como aconteceu, o presente tal como acontece e o futuro tal como se cumprirá. Por isso, tendo a prova das coisas acontecidas depois de terem sido preditas não sou incrédulo, mas creio e obedeço a Deus. Eu te peço: submete-te também a ele, para que, não crendo agora, forçosamente tenhas que crer mais tarde em tormentos eternos. Exortação final Esses tormentos foram preditos pelos profetas, e os poetas e filósofos, posteriores a eles, os imitaram a partir das Sagradas Escrituras, para dar autoridade aos seus ensinamentos. Desse modo, eles também falaram antecipadamente dos castigos que recairão sobre os ímpios e incrédulos, para que ficassem testemunhados para todos e ninguém pudesse dizer: “Não ouvimos falar disso, nem sabemos”. Se queres, lê tu também com interesse as Escrituras dos profetas e elas te guiarão com mais clareza para escapares dos castigos eternos e alcançares os bens eternos de Deus. De fato, ele, que nos deu a boca para falar, que formou o ouvido para ouvir e fez os olhos para ver, examinará tudo e julgará com justiça, dando a cada um segundo os próprios méritos. Para aqueles que, segundo suas forças, buscam a incorruptibilidade através das boas obras, ele dará a vida eterna, a alegria, a paz, o descanso e uma multidão de bens, que nenhum olho viu, nenhum ouvido e nenhum coração humano sentiu; mas aos incrédulos, aos zombadores e aos que desobedecem à verdade e seguem a injustiça, depois de manchar-se com adultérios, fornicações, pederastias, avarezas e sacrílegas idolatrias, para esses, existirá a ira e a indignação, a tribulação e a angústia, e, por fim o fogo eterno se apoderará deles.
Amigo, tu replicaste: “Mostra-me teu Deus”. Pois bem: esse é o meu Deus, e te aconselho que o temas e creias nele.

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

47 - Teófilo de Antioquia (†181) Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 6 ao 10)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 6 ao 10)

Capítulo VI – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus (cont.)
Ó homem, considera, portanto, as obras de Deus: a variedade das estações segundo os tempos, a mudança dos ares, o curso bem regrado dos elementos, a marcha também ordenada dos dias e das noites, dos meses e dos anos; a variada formosura das sementes, das plantas e dos frutos; a grande diversidade de criações: quadrúpedes e aves, répteis e peixes, seja de água doce, seja do mar; o instinto dado aos mesmos animais para gerar e criar, não para sua própria utilidade, mas para que o homem aproveite; a providência com que Deus prepara o alimento para toda carne, a submissão à humanidade que ele impôs a todas as coisas; as torrentes das fontes doces e dos rios perenes, o aparecimento oportuno do orvalho, das chuvas e das tempestades que acontecem segundo os tempos; o movimento tão variado dos elementos celestes, o luzeiro da manhã que surge para anunciar a vinda do grande astro, a conjunção da Plêiade e do Órion, o Arturo e o coro dos outros astros que circulam na abóbada celeste, aos quais a infinita sabedoria de Deus pôs nomes próprios.
É unicamente esse Deus que tirou a luz das trevas, que tira a luz de seus depósitos, que conserva os depósitos do vento, os reservatórios do abismo, os limites dos mares, os depósitos das neves e granizos, que junta as águas nos reservatórios do abismo ejunta as trevas em seus depósitos, tira a luz doce, desejada e grata, de seus depósitos, faz subir as nuvens da extremidade da terra, multiplica os relâmpagos para chover, envia o trovão para infundir medo, anuncia de antemão o seu estrondo por meio do relâmpago, para que a alma não sofra emoção súbita que a deixaria inanimada, e ainda modera a força do relâmpago que vem dos céus, para que não abrase a terra. De fato, se o relâmpago desenvolvesse todo o seu poder, abrasaria a terra e igualmente o trovão transtornaria tudo o que há nela.


Capítulo VII – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus (cont.)
Esse é o meu Deus, Senhor do universo, o Único que estendeu os céus e estabeleceu a largura da terra sob o céu, que perturba a profundeza do mar e faz ressoar suas ondas, que domina a sua força e acalma a agitação de suas ondas, que alicerçou a terra sobre as águas e deu seu espírito que a alimenta, cujo sopro tudo vivifica e, se ele o retivesse, tudo desfaleceria. Esse sopro, ó homem, faz a tua voz; tu respiras o espírito dele, e tu não o conheces. Isso acontece por causa da cegueira de tua alma e endurecimento do teu coração. Mas, se quiseres, podes curar-te. Coloca-te nas mãos do médico e ele operará os olhos de tua alma e do teu coração. Quem é esse médico? É Deus que cura e vivifica através do Verbo e da Sabedoria. Deus fez tudo a través do seu Verbo e da sua Sabedoria. Por seu Verbo foram estabelecidos os céus e por seu Espírito toda a força deles. Sua Sabedoria é poderosíssima. Por sua Sabedoria, Deus colocou os alicerces da terra, por sua inteligência dispôs os céus, em sua prudência os abismos se abriram e as nuvens derramaram o orvalho. Fé e visão Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente contra ele.

Capítulo VIII – Crer na ressurreição é razoável
Tu, porém, não crês que os mortos ressuscitam. Quando isso acontecer, então crerás, queiras ou não. E essa crença será considerada incredulidade, se não creres desde agora. Mas, por que não crês? Não sabes que a fé vai à frente de todas as coisas? De fato, qual lavrador pode colher, se antes não confia a semente à terra? Ou quem pode atravessar ornar, se antes não se confia à embarcação e ao piloto? Qual doente pode curar-se, se antes não se confia ao médico? Qual arte ou ciência pode alguém aprender, se antes não se entrega e se confia ao mestre? Portanto, se o lavrador crê na terra, o viajante no navio, o doente no médico, por que tu não queres confiar-te a Deus, do qual recebeste tantos dons? O primeiro dom é te haver tirado do nada para o ser. Se houve momento em que nem teu pai, nem tua mãe existiam, muito menos existias tu. Ele te plasmou de uma substância úmida e pequena e de uma pequenina gota, que também não existia antes, e finalmente te introduziu neste mundo. Além disso, crês que as imagens fabricadas por homens são deuses e que operam prodígios, e não crês que Deus, que te fez, possa novamente tornar a fazer-te?

Capítulo XIX – Vós credes em outros deuses
Os nomes dos deuses, aos quais dizes cultuar, são nomes de homens mortos. Quem eram esses e que valiam? Não se diz que Cronos era comedor de crianças e que devorava seus próprios filhos? Se falas de Zeus, filho dele, conheças bem sua vida e prodígios. Primeiramente, foi alimentado no Ida por uma cabra; depois, matando-a e esfolando-a, da pele fez para si, conforme as fábulas, uma vestimenta. Seus outros feitos, como, por exemplo, seu casamento com sua irmã, seus adultérios e corrupções de rapazes, Homero e os outros poetas os cantam melhor do que eu. Além disso, para que fazer a lista de seus filhos, um Héracles que se queima vivo; um Dioniso embriagado e louco; um ApoIo que tem medo de Aquiles e dele foge, e depois se enamora de Dafne e não fica sabendo da morte de Jacinto; uma Afrodite ferida; um Ares que é perdição dos mortais e, finalmente, o sangue que escorre de todos esses pretensos deuses? E isso tudo ainda é moderado, quando vemos um deus esquartejado que chamam de Osíris, do qual a cada ano se celebram mistérios, como se se perdesse e se encontrasse e fosse procurado membro por membro. Não se sabe se foi perdido, nem se mostra se foi achado! Por que devo falar de Átis mutilado, ou de Adônis, que anda errante pela selva, que caça e é ferido por um javali, ou de Asclépio fulminado, ou de Serápis, que vai fugitivo de Sínope para Alexandria, ou da frígia Artemis, tonta, fugitiva, assassina, caçadora e enamorada de Eudimião? Não somos nós que dizemos tudo isso, mas os vossos escritores e poetas que os apregoam.

Capítulo X – Vós credes em outros deuses (cont.)
Para que também fazer o catálogo da multidão de animais que os egípcios cultuam? Répteis e bestas, feras e aves, peixes das águas, e até os banhos dos pés e os ruídos vergonhosos. Se me falas dos gregos e das outras nações, elas cultuam pedras, madeiras e outras matérias, como dissemos antes, que são representações de homens mortos. Com efeito, sabemos que Fídias fez em Pisa o Zeus Olímpico para os éleos e a Atena da Acrópole para os atenienses. E agora, eu pergunto também a ti, homem: Quantos Zeus existem? Em primeiro lugar, chama-se Zeus o olímpico; depois, há um Zeus latino, um Zeus cássio, um Zeus fulminador, um Zeus Propator, um Zeus noturno, um Zeus defensor da cidade, um Zeus capitolino. E ainda o Zeus, filho de Cronos, que foi rei dos cretenses e tem sua sepultura em Creta. Quanto aos outros, não foram sequer considerados dignos de sepultura. Falar-me-ás da mãe dos pretensos deuses? Deus me livre nomear com minha boca suas ações, pois não nos é lícito sequer nomear tais coisas, ou as ações com que seus servidores lhe prestam culto e as contribuições e tributos que eles e seus filhos pagam ao imperador. Não são deuses, mas ídolos, como anteriormente dissemos, obras das mãos dos homens e demônios impuros. Que aqueles que os fabricam se tornem como eles e aqueles que neles põem a sua confiança.


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terça-feira, 24 de abril de 2018

46 - Teófilo de Antioquia (†181) Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 1 ao 5)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†181)
Primeiro Livro a Autólico (Capítulo 1 ao 5)


Capítulo I – Introdução
Boca eloqüente e dicção agradável fornecem prazer e glória fútil de louvor para os pobres homens que têm o entendimento corrompido; o amante da verdade, porém, não se prende a palavras afetadas, mas examina a eficácia da palavra, o que ela é e de que tipo é. Pois bem, meu amigo: tu me causaste estupor com palavras vãs, vangloriando-te dos teus deuses de pedra e madeira cinzelados e fundidos, esculpidos e pintados, deuses que não vêem nem ouvem (de fato, são imagens e obras de mãos humanas); além disso, tu também me chamas zombeteiramente de cristão, como se eu portasse um nome infame. Quanto a mim, confesso que sou cristão e trago esse nome grato a Deus, e espero ser útil ao mesmo Deus. Não há fundamento, para supores que seja difícil ter o nome de Deus; talvez porque, sendo inútil para Deus, tu pensas dessa maneira sobre Deus.

Capítulo II – Condições morais para o conhecimento de Deus

Mas se tu me dizes: “Mostra-me teu Deus”, eu te poderia responder: “Mostra-me teu homem, e eu te mostrarei o meu Deus”. Mostra-me, portanto, os olhos de tua alma que vejam e os ouvidos do teu coração que ouçam. Com efeito, aqueles que vêem com os olhos do corpo observam aquilo que se passa na vida e sobre a terra, discernindo juntamente as diferenças entre a luz e a escuridão, entre o branco e o negro, entre o disforme e a bela forma, entre o que é harmonioso, bem proporcionado e o que é desarmonioso e desproporcional, desmesurado e truncado; a mesma coisa para aquilo que cai sob o sentido dos ouvidos: sons agudos, graves e suaves. Acontece do mesmo modo com os ouvidos do coração e os olhos da alma aos quais é possível perceber Deus. De fato, Deus é experimentado por aqueles que podem vê-lo, desde que os olhos de sua alma estejam abertos. Todos têm olhos, mas alguns os têm obscurecidos e não percebem a luz do sol; e não é porque os cegos não vêem que a luz do sol deixa de brilhar, mas os cegos devem buscar a causa em si mesmos e em seus olhos.
Do mesmo modo, Ó homem, tu tens os olhos de tua alma obscurecidos por tuas faltas e tuas más ações. O homem deve ter alma pura como espelho brilhante. Quando o espelho fica enferrujado, não se pode mais ver a face do homem no espelho; assim também, quando há falta no homem, esse homem já não pode contemplar a Deus. Mostra-te a ti mesmo, se não és adúltero, se não és devasso se não és pederasta, se não és ladrão, se não és explorador, se não és colérico, se não és invejoso, se não és impostor, se não és soberbo, se não és brutal, se não és amante do dinheiro, se não desobedeces a teus pais, se não vendes teus filhos. Com efeito, Deus não se manifesta àqueles que cometem essas faltas, a não ser que antes se purifiquem de toda mancha. Por isso, tudo é obscuro para ti, como a bandagem que se coloca no olho por não poder contemplar a luz do sol. Assim também, ó homem, tuas impiedades projetam sobre ti trevas e tu não podes ver a Deus.

Capítulo III – Transcendência de Deus
Então me dirás: “Tu que vês, descreve-me o aspecto de Deus”. Escuta, homem: o aspecto de Deus é inefável, inexprimível, e não pode ser visto com os olhos carnais. Por sua glória, ele é sem limite, inigualável por sua grandeza, acima de qualquer idéia por sua altura, incomensurável por sua força, sem igual por sua sabedoria, inimitável por sua bondade, indizível por sua benevolência. Se eu o chamo Luz, é uma de suas criaturas que nomeio; se eu o chamo Verbo, nomeio o seu princípio; seu eu o chamo Razão, nomeio a sua inteligência; se eu o chamo Espírito, nomeio a sua respiração; se eu o chamo Sabedoria, nomeio o que ele gera; se eu o chamo Força, nomeio o seu poder; se eu o chamo Potência, nomeio a sua atividade; se eu o chamo Providência, nomeio a sua bondade; se eu o chamo Soberania, nomeio a sua glória; seu eu o chamo Senhor, digo que é juiz; se eu o chamo Juiz, digo que é justo; se eu o chamo Pai, digo que é tudo; se o chamo Fogo, nomeio a sua ira. Tu me dirás: “Deus fica irado?” Eu respondo: Sim, ele se ira contra aqueles cujas ações são más; no entanto, ele é bom, propício e misericordioso para com aqueles que o amam e o temem; ele é o educador dos fiéis, o pai dos justos, o juiz e castigador dos ímpios.

Capítulo IV – A soberania de Deus
Ele não tem princípio, porque não foi gerado; ele é imutável, porque é imortal. É chamado Deus porque fundou tudo sobre sua própria estabilidade, e ainda através de théein. Théein significa correr, ser ativo, trabalhar, alimentar, prover, governar, dar vida a tudo. Ele é Senhor, porque exerce o senhorio sobre tudo; Pai, porque existe antes de tudo; Fundador e Criador, porque ele criou e fez tudo; Altíssimo, porque ele é superior a todas as coisas; Onipotente, porque ele domina e envolve tudo. As alturas dos céus, as profundezas dos abismos, e os confins da terra estão em sua mão; não há lugar onde esteja suspensa a sua ação. Os céus são obra sua; a terra é realização sua; o mar é criação sua; o homem é figura e imagem sua; o sol, a lua e as estrelas são elementos seus, feitos para medir sinais, medida de tempo, dias e anos, para utilidade e serviço dos homens. E Deus fez tudo do não-ser para o ser, a fim de que por suas obras seja conhecida e compreendida a sua grandeza.

Capítulo V – Condições intelectuais para o conhecimento de Deus
Do mesmo modo como a alma não pode ser vista no homem, pois ela é invisível para os homens, mas pode ser imaginada por causa dos movimentos do corpo, assim também acontece com Deus: ele não pode ser visto pelos olhos humanos, mas pode ser visto e imaginado pela sua providência e pelas suas obras. Quando alguém vê no mar um navio com todo o seu apetrecho, que singra e se aproxima do porto, é evidente que pensa que há um piloto que o dirige; do mesmo modo, deve-se pensar que existe um Deus, que governa tudo, embora os olhos carnais não o vejam, porque ele não é circunscrito. Se o sol, que é o menor elemento existente, não pode ser fixado pelo olhar humano, pois é muito quente e muito forte, como não será muito mais impossível ao homem mortal ver face a face a glória inefável de Deus? A romã possui uma casca que a envolve; dentro tem muitas repartições ou casinhas separadas por membranas e, finalmente, muitos grãos aí alojados. Do mesmo modo, toda a criação está envolvida pelo sopro de Deus, e esse sopro que a envolve está com a criação pela mão de Deus.
Assim como o grão da romã, do interior de seu habitáculo, não pode ver o que está fora da casca, pois está lá dentro, também o homem, que é envolvido com toda a criação pela mão de Deus, não pode contemplar a Deus. Além disso, crê-se que um soberano terrestre existe, embora ninguém o veja: suas leis, seus editos, seus funcionários, suas autoridades, suas estátuas o tornam conhecido. E tu não queres reconhecer Deus pelas suas obras e manifestações de seu poder?

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segunda-feira, 16 de abril de 2018

45 - Teófilo de Antioquia (†182) Biografia


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Teófilo de Antioquia (†182)
Biografia


Teófilo de Antioquia foi teólogo, escritor e apologista. Foi eleito o sexto bispo de Antioquia, na Síria. Seu episcopado durou entre 169 e 182.
Antioquia nasceu em uma família de pagãos. A cidade era próxima ao rio Eufrates, na região mais distante do Império Romano e já mais aproximada da Pérsia. Quando criança, teve importante formação literária. Nesses estudos, acabou conhecendo a Bíblia e se converteu ao cristianismo.
Não há muitas informações sobre a vida de Antioquia, mas há indícios de que ele teria sido o quinto sucessor de Pedro em solo sírio.
Há relatos, citações e comentários do autor. A escrita apologética, dividida em três partes, acabou sendo direcionada a um amigo chamado Autólico – “Três Livros a Autólico”.
A obra defende os representantes do cristianismo que continuavam a ser perseguidos pelo Império Romano.
Na Antiguidade, Autólico nada mais era do que a encarnação das pessoas pagãs que não eram raras ali no final do século II.
A escrita elegante de Antioquia era marcada por linguagem clara e bom debate com as críticas. Ele convidava os leitores a serem mais profundos no que diz respeito à fé cristã.
Defendeu, com veemência, os ideais e morais da fé cristã.

Obra e principais traços literários
Fez um importante comentário ao livro de Gênesis e montou algumas alegorias. Escreveu também o “Comentário aos Evangelhos”.
Dentre os autores cristãos, Teófilo de Antioquia foi o primeiro a querer explicar como os livros do Novo Testamento vieram a partir da inspiração dos autores. Ele comparava tais livros à qualidade do Antigo Testamento.
Em termos de doutrina, sempre foi adepto à doutrina da Santíssima Trindade. Apresentou as distinções entre as Pessoas.
Foi o criador do termo “Τριας” – “Trias”, que quer dizer unidade em três diferentes pessoas divinas. Aqui está a origem do nome Trindade.

Expressões como “Logos endiáthetos” –passou a corresponder a “Logos “imanente” ou “eterno” (“imanente”), significa que está com Deus e em Deus ou Deus-Pai desde a eternidade.
Já o “Logos proforikós”, no seu entender quer dizer “Logos “proferido” ou “emitido” uma espécie de matriz e instrumento da criação bem expresso nos dias iniciais. “Logos encarnado”.
“Logos imanente” significa Jesus na fundação do mundo, eterno, com Deus e em Deus Pai.
“Logos proferido” significa Jesus encarnado, ou a partir da encarnação. Com o corpo formado no ventre da mulher.

Na sua obra contra Autólico, Teófilo procura, com enorme elegância e clareza de linguagem, debater as críticas contra os cristãos e convidar o seu possível leitor a ousar aprofundar os seus conhecimentos acerca da fé cristã, defendendo, ainda, a moral exemplar dos cristãos.
Estamos diante do ao último apologista de renome do século II e o único, dentre eles, elevado ao episcopado.
Eusébio de Cesaréia nos informa que “da Igreja de Antioquia, Teófilo é conhecido como o sexto bispo depois dos apóstolos” (HE, IV,20).
Sua cultura revela que recebera excelente educação grega. Sua família era pagã. Converteu-se ao cristianismo já adulto, através da leitura dos profetas, especialmente.
Exortando seu interlocutor Autólico a crer, revela Teófilo o processo de sua conversão: “Eu também não acreditava que isso existisse, mas agora, depois de refletir muito, eu creio; ao mesmo tempo, li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, os quais inspirados pelo Espírito de Deus, predisseram o passado como aconteceu, o presente tal como acontece e o futuro tal como se cumprirá. Por isso, tendo a prova das coisas acontecidas depois de terem sido preditas não sou incrédulo, mas creio e obedeço a Deus” (1,4).
Nada sabemos de sua morte ou de outras circunstâncias de sua vida. Sabemos apenas que por volta de 169-170, já era bispo de Antioquia.
Eusébio de Cesaréia afirma que “De Teófilo que citamos como bispo de Antioquia, possuímos três livros elementares A Autólico e outro intitulado Contra a heresia de Hermógenes, no qual utiliza testemunhos tiradas do Apocalipse de João. Possuímos ainda outros livros catequéticos. Como também naquele tempo, os hereges corrompiam não menos que em outros tempos, como a zizânia, a semente pura do ensinamento apostólico, os pastores da Igreja procuravam afastá-los, por toda parte, das ovelhas de Cristo, como feras selvagens, afastando-as tanto por meio de advertências e de exortações dirigidas aos irmãos, como lutando abertamente contra eles por meio de questões e de refutações orais, face a face, ou então refutando suas opiniões por provas bem precisas por meio de memórias escritas. Teófilo combateu, ao mesmo tempo que os outros, contra os heréticos, como demonstra um trabalho de grande valor composto por ele Contra Marcião. Esta obra foi conservada até o presente com os outros livros dos quais falamos” (HE, IV,24).
Os historiadores desse período costumam invocar, entre outros, também o testemunho de S. Jerônimo. De fato, no seu De viris illustribus 25, acrescenta algumas informações além das de Eusébio que merecem ser explicitadas aqui: “Teófilo, sexto bispo da Igreja de Antioquia, compôs sob o imperador Marco Aurélio Vero um livro Contra Marcião, que até hoje existe. Correm, também seus três volumes A Autólico e um livro Contra a heresia de Hermógenes, e outros breves e elegantes tratados que edificam a Igreja. Li de sua autoria uns comentários ao Evangelho e aos Provérbios de Salomão, que não me parecem afinados com a elegância e estilo dos volumes anteriores”.
Além disso parece ter escrito uma obra apologética Sobre as origens da humanidade segundo a Bíblia e a mitologia.
Escritor de cultura variada, de estilo elegante, ordeiro e claro.
Teófilo foi um cristão que se preocupou com a Bíblia Sagrada e com a moral dos cristãos. Defendeu o cristianismo e exigiu vida íntegra dos cristãos.
Foi um homem santo que serviu a igreja como Bispo e contribuiu para o discipulado cristão através de suas obras.
Estudaremos a sua obra completa a Autólico em três partes e conheceremos seu testemunho e sua espiritualidade cristã.


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segunda-feira, 9 de abril de 2018

44 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


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44
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


Capítulo XXIX
Também os sábios gregos, poetas e historiadores, contam a respeito de Héracles: “Cruel! Não respeitou a ira dos deuses, nem a mesa que lhe pusera, e depois matou seu próprio hóspede”, isto é, Ifito. Sendo assim, é natural que fosse louco, natural que acendesse uma fogueira e se queimasse vivo. De Asclépio, Hesíodo conta que: “o pai dos homens e dos deuses se irritou, e acertando-o do Olimpo com raio fuliginoso, matou Letoida, perturbando o coração de Tebo”. E Píndaro diz: “Mas até a sabedoria é atada pelo lucro. Também ele foi desviado pelo ouro que apareceu em sua mão por doce recompensa; mas o filho de Cronos, disparando com suas mãos, arrebatou-lhe velozmente o alento do peito, e o ardente raio feriu o insensato”.
Portanto, ou eram deuses e não se comportavam como homens em relação ao ouro: “Ouro, o mais belo presente para mortais, prazer que nem uma mãe ou os filhos ofereceu”. A divindade não tem necessidade, e está acima do desejo. Também não morreram. Ou, sendo homens, foram maus por ignorância e se deixaram dominar pelo dinheiro. Para que falar amplamente, recordando Cástor e Pólux ou Anfiaseu, os quais, sendo, como se diz, homens de ontem ou anteontem, são considerados deuses? A própria Ino, depois de sua loucura e o que nela sofreu, dizem que se transformou em deusa: “aqueles que caminham errantes pelo Ponto, a chamam Leucotéia”, assim como seu filho: “será chamado augusto Palêmon pelos marinheiros”.

2ª PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE IMORALIDADE, INCESTO E REFEIÇÕES BACANAIS

Capítulo XXX - Razões porque a Divindade foi apontada pelo homem
Ora, se pessoas tão abomináveis e odiosas a Deus alcançaram a reputação de ser deuses, e Semíramis, a filha de Derceto, mulher despudorada e criminosa, foi considerada deusa síria, e os sírios, através de Derceto, cultuam os peixes, e através de Semíramis as pombas - é impossível que uma mulher se transforme em pomba; a fábula aparece em Clésias-, o que há de estranho que aqueles que exerceram poder e tirania fossem chamados deuses por seus súditos? A Sibila (Platão também recor da) diz: “Virá então a décima geração de míseros homens, desde que o dilúvio caiu sobre os primeiros mortais, e reinaram Cronos, Titã e Iapeto, filhos poderosos da terra e do céu, que os homens chamaram de Gaia e Urano, dando-lhes nome por terem sido os primeiros entre os míseros homens”; uns por sua força, como Héracles e Perseu; outros por sua arte, como Asclépio.
Portanto, a uns foram os súditos que tributaram honra divina, a outros foram os governantes; uns por medo e outros por respeito tiveram parte no nome divino (o próprio Antínoco, por benevolência de nossos antepassados para com seus súditos, teve a sorte de ser considerado deus). Depois a posteridade os aceitou sem qualquer prova ou exame: “Cretenses sempre mentirosos. Com efeito, ó rei, os cretenses fabricaram o teu sepulcro. Tu, porém, não morreste”.
Calímaco, tu que crês no nascimento de Zeus recusas crer em sua sepultura, e pensando jogar uma sombra sobre a verdade, não fazes senão anunciar um morto mesmo àqueles que não o conhecem. Se olhas a gruta, te lembras do parto de Rea; mas se te fixas no ataúde, lanças uma sombra sobre o morto e já não sabes que só o Deus incriado é eterno.
Concluindo, ou os mitos do vulgo e dos poetas sobre os deuses são indignos de fé, e então é supérfluo o culto que se lhes tributa, porque não existem aquelas personagens sobre as quais essas fábulas tratam; ou se são verdadeiros seus nascimentos, amores, assassínios, roubos, mutilações e fulminações, também não existem, pois deixaram de existir, uma vez que nasceram por não existirem antes. Com efeito, que razão há para crer em alguns relatos e não crer em outros, quando tudo foi contado pelos poetas, com a finalidade de glorificá-los? De fato, os que foram causa de que fossem considerados deuses ao exaltar suas histórias, não mentiriam contando os seus sofrimentos.
Fica portanto demonstrado, segundo minhas forças, embora não conforme a dignidade do assunto, que não somos ateus ao admitir como o Deus, Criador de todo este universo, e o Verbo que dele procede.

Capítulo XXXI –
Além disso, acusam-nos sobre comidas e uniões ímpias, pretendendo com isso encontrar alguma razão para nos odiar. Pensam que, amedrontando-nos, nos afastarão do nosso propósito de vida; ou, com suas acusações exorbitantes, nos exasperarão e arrumarão intrigas com os governantes. Isso para nós é puro jogo, pois sabemos que esse costume é antigo e não inventado só para o nosso caso e que se realiza por uma espécie e razão divina, isto é, que a maldade faça sempre guerra à virtude. Assim, Pitágoras foi queimado pelo fogo com trezentos companheiros; Heráclito e Demócrito foram exilados, um de Efeso e o outro de Abdera, acusados de loucura; os atenienses condenaram Sócrates à morte. Mas se todos esses não perderam a reputação de virtude por causa da opinião do vulgo, a estúpida calúnia de alguns contra nós não faz nenhuma sombra à retidão de nossa vida, pois temos boa fama diante de Deus. Entretanto, quero também enfrentar essas acusações.
Sei que com o que eu disse estou defendido diante de vós. De fato, superando a todos por vossa inteligência, sabeis que aqueles que tomam a Deus como regra de vida, para que cada um de nós esteja sem culpa e sem mancha em sua presença, não podem ter, em pensamento, o mais leve pecado, e acreditássemos que nada existe além desta vida presente, poder-se-ia suspeitar que pecássemos, submetendo-nos à servidão da carne e do sangue ou sendo dominados pelo lucro e pelo desejo. Sabendo, porém, como sabemos, que Deus vigia nossos pensamentos e nossas palavras, tanto de dia como de noite, e que ele é todo luz e vê até dentro do nosso coração; acreditando, como cremos, que, ao sair desta vida, viveremos outra melhor, contando que permaneçamos com Deus e por Deus inquebrantáveis e superiores às paixões, com alma não carnal, mas com espírito celeste, embora na carne; ou acreditando que, se cairmos como os demais, espera-nos uma vida pior no fogo (porque Deus não nos criou como rebanhos ou bestas de carga, de passagem, só para morrer e desaparecer); crendo nisso, dizíamos, não é lógico que nos entreguemos voluntariamente ao mal e nos joguemos a nós mesmos nas mãos do grande juiz para sermos castigados.

Capítulo XXXII 
Não há nada de surpreendente que falem de nós a mesma coisa que contam sobre seus deuses, pois apresentam suas paixões como mistérios. Contudo, se querem apresentar como crime o unir-se livre e indiferentemente, teriam de começar a rejeitar Zeus, que teve filhos com sua mãe Rea e com sua filha Coré e cuja mulher é a própria irmã, ou rejeitar Orfeu, o inventor de todos esses contos, que tornou Zeus mais ímpio e abominável do que Tiestes; com efeito, este se uniu com a própria filha através de um oráculo e pelo desejo de chegar a reinar e vingar-se. Nós, porém, estamos tão longe de ver isso com indiferença que não nos é lícito sequer olhar com intenção de desejo. De fato, a Escritura diz: “Aquele que olha para uma mulher a fim de desejá-la já cometeu adultério em seu coração”. Como não acreditar que são castos os que nada podem olhar além daquilo para o qual Deus formou os olhos, isto é, para que fossem nossa luz, aqueles que consideram adultério o olhar com prazer, pois os olhos foram criados para outra finalidade, e os que serão julgados até pelos seus pensamentos? Nós nada temos a ver com leis humanas, que qualquer malvado pode burlar (desde o começo, ó soberano, vos assegurei que nossa doutrina era ensinamento de Deus), mas temos uma lei e mandamento, que nos deu a nós mesmos e ao nosso próximo como medida de justiça. Por isso, dependendo da idade, consideramos a uns como filhos e filhas, a outros como irmãos e irmãs, e aos mais velhos tributamos honra de pais e mães. Assim, empenhamo-nos para que aqueles aos quais damos nome de irmãos e irmãs e outras qualificações familiares, permaneçam sem ultraje ou corrupção em seus corpos, como nos diz também a palavra divina: “Se alguém, por ter gostado, dá um segundo beijo…” Portanto, é preciso ser muito exato a respeito do beijo e principalmente na adoração, porque por pouco que manchem nossa mente nos colocam fora da vida eterna.

Capítulo XXXIII - Indissolubilidade do matrimônio
Como temos esperança na vida eterna, desprezamos as coisas da vida presente e até os prazeres da alma, tendo cada um de nós por mulher aquela que tomou conforme as leis estabelecidas por nós e com a finalidade de procriar filhos. Assim como o lavrador, jogada a semente na terra, espera a colheita e não continua semeando, do mesmo modo, para nós, a medida do desejo é a procriação de fïlhos . E até é fácil encontrar muitos dentre nós, homens e mulheres, que chegaram celibatários à velhice, com a esperança de um relacionamento mais íntimo com Deus. Se o viver na virgindade e castração aproxima mais de Deus e só o pensamento e o desejo separa, se fugimos dos pensamentos, quanto mais não recusaremos as obras? Nossa religião não se mede pelos discursos cuidadosos, mas pela demonstração e ensinamento de obras: ou se permanece como nasceu, ou não se contrai mais do que um matrimônio, pois o segundo é um adultério decente. A Escritura diz: “Quem deixa sua mulher e casa com outra, comete adultério”, não permitindo deixar aquela cuja virgindade desfez, nem casar-se novamente. Quem se separa de sua primeira mulher, mesmo quando morreu, é adúltero dissimulado, transgredindo a mão de Deus, pois no princípio Deus formou um só homem e uma só mulher, desfazendo a comunidade da carne com a carne, segundo a unidade para a união dos sexos.

Capítulo XXXIV
Nós que somos assim (por que devo falar o que não pode ser dito?), temos que ouvir o provérbio: “A prostituta para a casta”. Com efeito, os que fazem mercado de prostituição e constroem para os jovens prostíbulos para todo prazer vergonhoso; os que não perdoam nem aos homens, cometendo atos torpes homens com homens; os que ultrajam de mil modos os corpos mais respeitáveis e mais formosos, desonrando a beleza feita por Deus (pois a beleza não nasce espontaneamente da terra, mas é enviada pela mão e desígnio de Deus); esses nos atiram na cara aquilo de que têm consciência, o que eles chamam de deuses, adúlteros e pederastas insultando aos virgens e monógamos. Eles que vivem como peixes (pois devoram quem lhes cai na boca, o mais forte atacando o mais fraco - isso sim é alimentar-se de carnes humanas - e que, tendo leis estabelecidas por vossos antecessores após maduro exame para toda a justiça, violentam-se os homens contra elas, de modo que não são suficientes os governadores mandados por vós para os julgamentos); esses, dizíamos, acusam os que não podem deixar de se apresentar aos que os golpeiam nem de abençoar os que os amaldiçoam. Para nós não basta ser justos - a justiça consiste em dar o mesmo aos iguais - mas nos é proposto que sejamos bons e pacientes.

3ª PARTE: OS CRISTÃOS NÃO SÃO ANTROPÓFAGOS

Capítulo XXXV - Os cristãos detestam e condenam qualquer crueldade
Quem, em plena razão, poderia dizer que, sendo assim, somos assassinos? Não é possível saciar-se de carne humana, se antes não matamos alguém. Se eles mentem quanto ao primeiro ponto, mentem também quanto ao segundo. Com efeito, se lhes é perguntado se viram o que dizem, não existe ninguém tão sem-vergonha que diga ter visto. Entretanto, temos escravos, alguns mais outros menos, para os quais não é possível ocultar-nos. No entanto, nenhum deles chegou a caluniar-nos com semelhantes coisas. De fato, os que sabem que não suportamos ver uma execução com justiça, como vão nos acusar de matar e comer homens? Quem de vós não se entusiasma em ver os espetáculos de gladiadores ou de feras, principalmente os que são organizados por vós? Nós, porém, que consideramos que ver matar está próximo do próprio matar, nos abstemos de tais espetáculos. Portanto, como podemos matar os que não queremos sequer ver para não contrair mancha ou impureza em nós? Afirmamos que as mulheres que tentam o aborto cometem homicídio e terão que dar contas a Deus por ele 4; então, por que iríamos matar alguém? Não se pode pensar que aquele que a mulher leva no ventre é um ser vivente e objeto, consequentemente, da providência de Deus e em seguida matar aquele que já tem anos de vida; não expor o nascido, crendo que expor os filhos equivale a matá-los, e tirar a vida ao que já foi criado. Não! Nós somos em tudo e sempre iguais e concordes com nós mesmos, pois servimos à razão e não a violentamos.

Capítulo XXXVI
Além disso, quem crê na ressurreição quererá oferecer-se como sepultura dos corpos que hão de ressuscitar? Não é possível alguém acreditar que nossos corpos ressuscitarão e, ao mesmo tempo, os coma, como se não devessem ressuscitar; pensar que a terra devolverá seus próprios mortos e, ao mesmo tempo, pensar que aqueles que engoliu não reclamarão. É mais verossímil o contrário, aqueles que pensam que não se terá de dar conta desta vida, tanto faz se é boa ou má, e que não haverá ressurreição, mas que julgam que com o corpo perece também a alma e esta como que se apaga; é natural, dizíamos, que esses não se abstenham de nenhum atrevimento, creem que nada ficará sem ser examinado diante de Deus e que juntamente com a alma será castigado o corpo que cooperou com seus impulsos e desejos irracionais, quanto a esses não há razão para que cometam o mais leve pecado. Se para alguém parece pura charlatanice que um corpo apodrecido, desfeito e desaparecido torne a organizar-se, não poderia por parte daqueles que não creem na ressurreição imputar-nos maldade, mas ingenuidade. De fato, se nos enganamos a nós mesmos com essas razões, não causamos prejuízo a ninguém. Entretanto, não somos apenas nós que admitimos a ressurreição dos corpos, mas muitos filósofos também estão conosco. Contudo, seria ocioso demonstrar-vos isso agora, a não ser que introduzíssemos raciocínios estranhos ao nosso objetivo, falando do inteligível, do sensível, da constituição de um e de outro, que o incorporal é anterior aos corpos, que inteligível precede o sensível, embora não seja isso o que primeiro encontramos, pois os corpos são constituídos de elementos incorpóreos, conforme a acumulação do inteligível, e o sensível é constituído de elementos inteligíveis. Segundo a doutrina de Pitágoras e de Platão, nada impede que, realizada a dissolução dos corpos, voltem depois a organizar-se com os mesmos elementos dos quais eram constituídos no princípio.

Capítulo XXXVII
Reservemos, porém, para outra ocasião o discurso sobre a ressurreição. Quanto a vós que, em tudo e por tudo, por natureza e educação, sois bons, moderados, humanos e dignos do império, inclinai vossa imperial cabeça diante de quem desfez todas as acusações e demonstrou que somos piedosos, modestos e puros em nossas almas. Quais são os que merecem, com mais justiça, conseguir o que pedem senão nós que rogamos por vosso império, para que o herdeis, como é de estrita justiça, de pai para filho, que cresça e acresça, através da submissão de todos os homens? Isso também redunda em proveito nosso, para que, levando uma vida tranquila e pacífica, cumpramos animadamente tudo quanto nos é mandado.

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