quarta-feira, 19 de julho de 2017

19 - Pastor de Hermas - Capítulo 22 a 32.

19
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
O Pastor de Hermas (155)
4ª e 5ª Visões e 1º ao 4º Mandamentos - Capítulos 22 ao 32

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QUARTA VISÃO
CAPÍTULO 22
Irmãos, esta é a visão que tive vinte dias depois da última, prefigurando a tribulação que se aproxima. Eu caminhava pela Via Campana para o meu campo, situado a uns dez estádios da via pública. O lugar é de fácil acesso. Caminhando sozinho, pedi ao Senhor que completasse as revelações e as visões que me enviou por meio de sua santa Igreja, a fim de me fortalecer e conceder a conversão aos seus servos que tropeçaram. Desse modo, seu nome sublime e glorioso será glorificado, pois ele julgou-me digno de me mostrar suas maravilhas. Eu o glorificava e lhe dava graças, quando um ruído de vozes me respondeu: Não duvides, Hermas. Comecei então a refletir e disse a mim mesmo: Que razões teria eu para duvidar, eu que sou assim sustentado pelo Senhor e que vi essas maravilhas? Avancei um pouco, irmãos, e então vi uma nuvem de poeira que se levantava até o céu, e perguntei: Será algum rebanho que se aproxima e levanta a poeira? A nuvem estava mais ou menos a um estádio de mim. Mas ela aumentava cada vez mais e eu suspeitei que fosse algo divino. Nesse momento, o sol brilhou um pouco, e então pude ver uma fera enorme, parecida com a baleia. E da sua boca saíam gafanhotos de fogo. A fera tinha cerca de cem pés de comprimento, e sua cabeça era do tamanho de um barril. Comecei a chorar e a pedir ao Senhor que me livrasse do monstro. Lembrei-me da palavra que tinha ouvido: Não duvides, Hermas. Então, irmãos, revesti-me da fé em Deus, lembrei-me de seu ensinamento sublime e, num arroubo de coragem, me expus diante da fera. Ela avançava com grande estrépito, capaz de destruir uma cidade. Aproximei-me, e a enorme baleia se estendeu pelo chão, apenas pondo para fora a língua. Ela não fez nenhum outro movimento, até que passei por ela. A fera tinha quatro cores na cabeça: preto, avermelhado de fogo e sangue, dourado e branco.

CAPÍTULO 23
Eu ultrapassara a fera, e continuei uns trinta pés, quando veio ao meu encontro uma jovem adornada, como se estivesse saindo do quarto nupcial, toda vestida de branco, com sandálias brancas, coberta até a fronte, com mitra cobrindo a cabeça. Seus cabelos eram brancos. Pelas visões anteriores, reconheci que era a Igreja, e fiquei muito contente. Ela me saudou, dizendo: Bom dia, homem. Eu lhe respondi com a mesma saudação: Bom dia, senhora. Ela me perguntou: Não encontraste nada? Eu lhe respondi: Senhora, encontrei uma fera tão grande, que seria capaz de aniquilar povos. Mas, pelo poder e misericórdia do Senhor, consegui escapar dela. Então me disse: Tiveste a felicidade de escapar, porque entregaste tua preocupação a Deus, abriste teu coração ao Senhor, acreditando que não poderias ser salvo de outro modo, senão pelo seu Nome grande e glorioso. Por isso, o Senhor enviou o seu anjo, aquele que está à frente das feras selvagens, cujo nome é Tegri: ele fechou a boca da fera, a fim de evitar que ela te devorasse. Por tua fé, escapaste de grande tribulação, pois a visão de tão grande fera não te fez duvidar. Portanto, agora vai, e explica as grandezas do Senhor aos seus eleitos. Dize-lhes que essa fera é a prefiguração da grande tribulação que está para chegar. Se vos preparardes e de todo coração fizerdes penitência diante do Senhor, podereis escapar da tribulação. É preciso, porém, que vosso coração se tome puro e irrepreensível, e que sirvais irrepreensivelmente ao Senhor pelo resto de vossos dias. Entregai ao Senhor as vossas preocupações, e ele as resolverá. Crede no Senhor que tudo pode, vós que duvidais. Ele desvia sua ira de vós e envia flagelos para vós que duvidais Ai daqueles que ouvirem essas palavras e não as aceitarem. Seria melhor para eles não ter nascido.

CAPÍTULO 24
Perguntei-lhe então sobre as quatro cores que a fera tinha na cabeça. Ela me respondeu: Estás novamente curioso a respeito dessas coisas. Eu lhe disse: Sim, senhora. Dá-me a conhecer o que significa isso. Ela disse: Escuta. A cor negra é este mundo em que habitais; o avermelhado de fogo e sangue quer dizer que este mundo deverá perecer pelo fogo e pelo sangue. A parte dourada sois vós, que fugistes deste mundo. Com efeito, o ouro é provado pelo fogo e se torna útil. Da mesma forma, vós que habitais no mundo sois provados. Vós que perseverais e resistis à prova do fogo, sereis purificados. Assim como o ouro deixa sua escória, vós também deixareis toda tristeza e angústia, e sereis purificados e úteis para a construção da torre. A parte branca é o mundo que se aproxima, onde habitarão os eleitos de Deus, pois os eleitos de Deus para a vida eterna serão puros e sem mancha. Quanto a ti, não cesses de falar aos santos. Tendes a prefiguração da grande tribulação que se aproxima. Se quiserdes, porém, ela não será nada. Lembrai vos do que foi escrito antes. Tendo dito isso, ela foi embora, e eu não vi por onde se foi. Apareceu uma nuvem e eu, apavorado, voltei-me para olhar para trás, com a impressão de que a fera estivesse voltando.

QUINTA VISÃO
CAPÍTULO 25
Eu estava rezando em casa, sentado na cama, quando vi entrar um homem de aparência gloriosa, vestido com roupas de pastor, coberto com pele branca de cabra, com o bornal nas costas e o cajado na mão. Saudou-me e respondi à saudação. Imediatamente ele sentou ao meu lado, e me disse: Fui enviado pelo anjo mais venerável, para morar contigo pelo resto da tua vida. Pareceu-me que ele estava ali para me provar. Eu lhe perguntei: Quem és tu? Eu sei muito bem a quem fui confiado. Ele me disse: Não me reconheces? Eu respondi: Não. Ele continuou: Eu sou o Pastor, a quem foste confiado. Ele ainda falava, quando seu aspecto mudou, e então o reconheci: era justamente aquele a quem eu fora confiado. Logo a seguir, cheio de confusão, fui tomado pelo medo e completamente arrasado pela tristeza. Será que eu o tinha tratado de forma desconsiderada e insensata? Ele, porém, me respondeu: Não te perturbes. Ao contrário, fortalece-te com os mandamentos que te darei, pois fui enviado para te mostrar, ainda uma vez, tudo o que viste antes, os principais pontos úteis para vós. Quanto a ti, anota tudo sobre os mandamentos e as parábolas. Escreverás as outras coisas, conforme eu te indicar. Ordeno que escrevas primeiro os mandamentos e as parábolas, para que possas lê-los e observá-los imediatamente. Então escrevi os mandamentos e as parábolas, conforme ele me ordenara. Se vós os escutardes e observardes, se caminhardes neste caminho e os puserdes em prática com o coração puro, recebereis do Senhor tudo o que vos prometeu. Todavia, se depois de escutardes, não vos converterdes, se continuardes a pecar, recebereis do Senhor o contrário. Eis aqui tudo o que o Pastor, o anjo da penitência, me ordenou que escrevesse.

PRIMEIRO MANDAMENTO
CAPÍTULO 26
“Antes de tudo, crê que existe um só Deus, que criou e organizou o universo, fazendo passar todas as coisas do não-ser para o ser, que contém tudo e ele próprio não é contido por nada. Crê nele e teme-o, e temendo-o, sê continente. Observa isso e afasta de ti todo mal, para que sejas revestido de toda virtude de justiça, e viverás para Deus, se observares esse mandamento.”

SEGUNDO MANDAMENTO
CAPÍTULO 27
Ele me disse: “Sê simples e inocente, e serás como as crianças que não conhecem o mal que destrói a vida dos homens. Em primeiro lugar, não fales mal de ninguém, nem ouças com prazer o maledicente. Do contrário, participarás do pecado do maledicente, se acreditares na maledicência que ouves. Pois, acreditando nisso, também ficarás hostil ao teu irmão, e participarás do pecado do maledicente. A maledicência é má, é demônio agitado, que nunca está em paz, e só sente prazer nas discórdias. Fica longe dele, e tuas relações com todos serão sempre perfeitas. Sê reservado. Com reserva, não há mau tropeço, mas tudo é plano e alegre. Realiza o bem e, do produto do trabalho que Deus te concede, dá com simplicidade a todos os necessitados, sem te preocupares a quem darás ou não. Dá a todos, porque Deus quer que seus próprios bens sejam dados a todos. Os que recebem prestarão contas a Deus do motivo e finalidade daquilo que tiverem recebido: os que receberem por necessidade não serão julgados, mas os que enganarem para receber, serão punidos. Aquele que dá é irrepreensível, pois realiza com simplicidade o serviço, conforme recebeu do Senhor, sem discriminar a quem dá ou não. O serviço, assim realizado na simplicidade, subsistirá em Deus. Observa, portanto, esse mandamento, conforme te ordenei, para que tua conversão e a da tua casa sejam encontradas simples, puras, inocentes e incorruptíveis.”

TERCEIRO MANDAMENTO
CAPÍTULO 28
Ele me disse novamente: “Ama a verdade, e apenas a verdade saia de tua boca, para que o espírito, que Deus colocou nesse corpo, seja encontrado verdadeiro por todos os homens. Assim, o Senhor, que habita em ti, será glorificado, porque o Senhor é verdadeiro em todas as palavras, e nele não há mentira. Os mentirosos renegam o Senhor e o despojam, não lhe restituindo o depósito recebido. De fato, receberam dele um espírito que não mente. Se o restituem mentiroso, transgridem o mandamento do Senhor e se tornam fraudulentos.” Ouvindo isso, eu chorei muito. Vendo-me chorar, ele me disse: “Por que choras?” Eu respondi: “Senhor, porque não sei se posso me salvar.” Ele perguntou: “Por quê?” Eu continuei: “Senhor, é porque na minha vida eu nunca disse palavra verdadeira, mas sempre vivi usando de fraude para com todos e fiz com que minhas mentiras passassem por verdades aos olhos de todos. Ninguém jamais me contradisse. Ao contrário,
sempre confiaram em minha palavra. Senhor, como posso viver, tendo feito isso?” Ele me disse: “Tu pensas bem e verdadeiramente. De fato, era preciso que, como servo de Deus, tivesses caminhado na verdade. A má consciência não deveria habitar com o espírito da verdade e trazer tristeza ao espírito santo e verdadeiro.” Eu disse: “Senhor, jamais ouvi palavras tão exatas.” Ele continuou: “Agora, porém, estás ouvindo. Observa-as, a fim de que também as mentiras que disseste antes em teus negócios, agora tenham credibilidade, ao verem que a tua linguagem hoje é verdadeira. Se observares essas coisas e, a partir de agora, disseres só a verdade, poderás adquirir a vida. E todo aquele que observar esse mandamento e se abstiver desse grande vício da mentira, viverá em Deus.”

QUARTO MANDAMENTO

CAPÍTULO 29
Ele me disse: “Eu te ordeno guardar a castidade e que não entre em teu coração o desejo de outra mulher, nem de qualquer fornicação, nem de qualquer outro vício semelhante. Porque, se fizeres isso, cometerás grande pecado. Lembra-te sempre de tua esposa, e jamais pecarás. Se esses desejos entrarem em teu coração, pecarás; e se entrarem outras coisas igualmente más, também cometerás pecado, pois tal desejo é grande pecado para o servo de Deus. Se alguém realiza esse ato vicioso, prepara a morte para si mesmo. Portanto, estejas atento. Evita esse desejo, pois onde habita a santidade, no coração do homem justo, a iniquidade não deve entrar.” Eu lhe disse: “Senhor, permite-me apresentar algumas questões.” Ele respondeu: “Podes perguntar.” Eu continuei: “Senhor, se alguém tem esposa que crê no Senhor, e descobre que ela é adúltera, esse homem comete pecado vivendo com ela?” Ele me respondeu: “Enquanto ele não sabe, não comete pecado. Mas se fica sabendo do pecado de sua mulher e que ela, ao invés de se arrepender, persiste no adultério, o marido, vivendo com ela, se torna
cúmplice de sua falta e participa no adultério dela.” Então perguntei: “Se a mulher persiste nessa paixão, o que o marido deverá fazer?” Ele respondeu: “Deve repudiá-la e viver sozinho. Contudo, se depois de ter repudiado sua mulher, ele se casar com outra, então ele também comete adultério.” Eu disse: “Senhor, e se a mulher depois de ter sido repudiada, se arrepender e quiser voltar a seu marido, ele deverá acolhê-la?” Ele continuou: “Sim. E se o marido não a receber, ele cometerá pecado e carrega-se de grande culpa. E preciso acolher aquele que peca e se arrepende, mas não muitas vezes. Para os servos de Deus existe apenas uma conversão. É em vista dessa conversão que o homem não deve se casar de novo. Essa obrigação vale tanto para a mulher como para o homem. O adultério não é apenas macular o corpo. Quem vive como os pagãos, também comete adultério. Portanto, se alguém persiste nessa conduta sem se converter, afasta-te e não vivas mais com ele. Caso contrário, serias cúmplice do seu pecado. A razão por que se ordena permanecer sozinho, tanto o homem como a mulher, é porque em tal caso é possível o arrependimento. “Contudo, não quero dar tal pretexto para que alguém faça isso, e sim impedir que o pecador recaia no pecado. Para quem pecou antes, existe quem pode curá-lo: é aquele que tem poder sobre todas as coisas”.

CAPÍTULO 30
Continuei a perguntar: “Uma vez que o Senhor julgou-me digno de habitares sempre comigo, suporta ainda algumas interrogações, pois nada compreendo, e meu coração se endureceu, por causa de minhas ações passadas. Ensina-me, pois sou totalmente desprovido de inteligência e não compreendo absolutamente nada.” Ele me respondeu: “Estou encarregado da conversão e concedo inteligência a todos o que se arrependem. Não te parece que o fato de se arrepender é em si
mesmo inteligência? O arrependimento é ato de grande inteligência. Com efeito, o pecador compreende que fez o mal diante do Senhor, e que o ato que ele cometeu entra no coração, então se arrepende e não pratica mais o mal. Ao contrário, ele se empenha com todo o zelo a praticar o bem, humilha e experimenta a sua alma, pois ela pecou. Vês, portanto, que o arrependimento é ato de grande inteligência.” Eu disse: “Senhor, é por isso que te pergunto essas coisas com minúcias. Primeiro, porque sou um pecador que desejo saber o que devo fazer para viver, pois meus pecados são muitos e numerosos.” Ele disse: “Viverás, se observares meus mandamentos e seguires seus caminhos. Quem ouvir esses mandamentos
e os observar, viverá em Deus.”

CAPÍTULO 31
Eu disse: “Senhor, ainda quero te fazer outra pergunta.” Ele respondeu: “Pergunta.” Continuei: “Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados anteriores.” Ele me respondeu: “Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer na pureza. Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. Para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência, pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e exercer sua malícia contra eles. Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela. Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem, pois dificilmente viverá.” Então eu lhe disse: “Senhor, sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei que serei salvo, se eu não continuar a pecar.” Ele me disse: “Serás salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas.”

CAPÍTULO 32
Eu lhe perguntei novamente: “Senhor, já que toleraste uma vez minhas interrogações, esclarece-me também este ponto.” Ele respondeu: “Podes falar.” Eu disse: “Senhor, se uma mulher ou um homem morre e o cônjuge se casa de novo, este último peca por se casar?” Ele respondeu: “Não peca, mas, se permanece sozinho, adquire maior honra e glória diante do Senhor. Se ele se casa, porém,
não comete pecado. Observa, portanto, a castidade e a santidade, e viverás em Deus. Observa tudo o que te digo e te direi a partir deste dia em que me foste confiado, e habitarei em tua casa. Alcançarás o perdão de teus pecados passados, contanto que observes os meus mandamentos. Também os outros serão perdoados, se observarem meus mandamentos e se caminharem nessa castidade.”




O que você deseja destacar neste texto?
O que serviu para sua espiritualidade?

terça-feira, 11 de julho de 2017

18 - O Pastor de Hermas - Segunda e Terceira Visões - Capítulos 5 ao 21

18
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
O Pastor de Hermas (155)
Segunda e Terceira Visões - Capítulos 5 ao 21

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SEGUNDA VISÃO

CAPÍTULO 5
Eu me dirigia para Cumas, na mesma época do ano anterior. Enquanto caminhava, lembrei-me da visão que tivera no ano anterior, e novamente um espírito me arrebatou e me transportou para o mesmo lugar do ano precedente. Chegando aí, ajoelhei, comecei a rezar ao Senhor e a glorificar o seu nome, por me ter considerado digno e meter dado a conhecer os meus pecados passados. Ao me levantar da oração, vi diante de mim a senhora idosa que eu vira no ano anterior. Ela caminhava e lia um pequeno livro. Então me disse: Podes anunciar isto aos eleitos de Deus? Eu lhe respondi: Senhora, não consigo guardar na memória tantas coisas. Dá-me o livrinho, para que eu faça uma cópia. Ela disse: Toma e depois me devolve. Eu o tomei e, afastando-me para um lugar do campo, copiei tudo, letra por letra, porque não conseguia reconhecer as sílabas. Quando terminei de copiar as letras do livrinho, repentinamente me foi tirado da mão, sem eu ver quem o tomou.

CAPÍTULO 6
Depois de quinze dias de jejum e muitas orações ao Senhor, foi-me revelado o sentido do texto. Estava escrito o seguinte: Hermas, teus filhos se revoltaram contra Deus, blasfemaram o Senhor, traíram seus pais com muita maldade e tiveram de ouvir o nome de traidores de seus pais. Sua traição de nada lhes aproveitou e ainda continuaram acrescentando aos seus pecados a impureza e as contaminações da maldade e, desse modo, suas iniqüidades chegaram ao máximo. Transmite essas palavras a todos os teus filhos e à tua esposa, que doravante deve ser como tua irmã. Ela não domina a língua com a qual pratica o mal, porém, ouvindo essas palavras ela a dominará e alcançará misericórdia. Depois que tiveres dado a conhecer essas palavras que o Senhor me ordenou revelar-te, todos os pecados passados serão perdoados a eles, bem como a todos os santos que pecaram até hoje, se fizerem penitência de todo o coração e se afastarem de seus corações as dúvidas. O Senhor jurou por sua glória e respeito de seus eleitos: se depois deste dia, fixado como limite, ainda se cometer um só pecado, eles não obterão a salvação, pois a penitência para os justos tem limite. Terminaram os dias de penitência para todos os santos. Contudo para os pagãos, a penitência pode ser feita até o último dia. Dize, portanto, aos chefes da Igreja que endireitem seus caminhos na justiça, a fim de receberem plenamente, com grande glória, o que lhes foi prometido. Perseverai portanto, vós que praticais a justiça, e não duvideis, para que o vosso caminho esteja com os santos anjos. Felizes sois vós que suportais a grande tribulação que se aproxima, e todos os que não renegarem a sua própria vida. Porque o Senhor jurou por seu Filho: aqueles que renegarem o seu Senhor, perderão sua própria vida, como também aqueles que estão dispostos a renegá-lo nos dias futuros. Quanto àqueles que o renegaram antes, o Senhor, em sua grande misericórdia, tornou-se propício para eles.

CAPÍTULO 7
Quanto a ti, Hermas, não tenhas rancor contra teus filhos, nem abandones tua irmã. E assim, eles serão purificados dos pecados que cometeram. Se tu não lhes guardares rancor, eles receberão educação correta. O rancor provoca a morte. Quanto a ti, Hermas, sofreste grandes tribulações pessoais por causa das faltas de tua família, porque não cuidavas dela. Tu a negligenciaste, envolvendo-se ela em teus maus negócios. O que te salva, porém, é não teres abandonado o Deus vivo, assim como a tua simplicidade e a tua grande continência. Isso te salva, contanto que perseveres, e salva também todos aqueles que agem assim e andam no caminho da inocência e da simplicidade. Esses dominarão todo o mal e permanecerão firmes até a vida eterna. Felizes todos aqueles que praticam a justiça; jamais perecerão. 'Dize a Máximo: Eis que chega a tribulação. Se te parece bem, renega de novo. O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medat, que profetizaram para o povo no deserto.'

CAPÍTULO 8
Irmãos, quando eu dormia, tive uma revelação. Foi-me feita por um jovem encantador, que me disse: Quem achas que é a mulher idosa de quem recebeste o livrinho? Eu respondi: A Sibila. Ele disse: Estás enganado. Não é ela. Eu lhe perguntei: Quem é então? Ele me respondeu: É a Igreja. Eu lhe perguntei: Então, por que era tão idosa? Ele respondeu: Porque foi criada antes de todas as coisas. Por isso, ela é idosa. Foi por meio dela que o mundo foi ordenado. Depois disso, tive
uma visão em minha casa. A mulher idosa apareceu e me perguntou se eu já havia entregue o livrinho aos presbíteros. Eu respondi que não. Ela continuou: Fizeste bem, porque tenho algumas palavras para acrescentar. Quando eu tiver terminado tudo o que tenho a dizer, tu o darás a conhecer a todos os eleitos. Farás duas cópias do livrinho e as mandarás, uma a Clemente e outra a Grapta. Clemente, por sua vez, mandará a cópia às outras cidades, porque essa missão é dele. Grapta exortará as viúvas e os órfãos. Tu o lerás para esta cidade, na presença dos presbíteros que dirigem a Igreja.

TERCEIRA VISÃO

CAPÍTULO 9
Irmãos, esta é a terceira visão que eu tive. Eu tinha jejuado freqüentemente e pedido ao Senhor que me concedesse a revelação que ele tinha prometido fazer-me por meio da mulher idosa. Nessa mesma noite, ela me apareceu e disse: Já que tens tanto desejo de conhecer tudo, vai ao campo onde cultivas a espelta, e pela quinta hora eu aparecerei a ti e te mostrarei o que precisas ver. Eu lhe perguntei: Senhora, em que lugar do campo? Ela respondeu: Onde quiseres. Escolhi um lugar belo e afastado. Contudo, antes que eu lhe falasse e dissesse o lugar, ela me disse: Irei aonde quiseres. Irmãos, eu caminhava, então, pelo campo, cantando as Horas. Cheguei ao lugar onde lhe havia dito que iria e vi um banco de marfim e em cima dele uma almofada de linho e, estendido sobre ela um véu de linho finíssimo. Ao ver esses objetos, sem que houvesse ninguém no lugar, fiquei espantado. Fui tomado de tremor e meus cabelos ficaram em pé. Ao verme sozinho ali, tive calafrios. Contudo, caí em mim, lembrei-me da glória de Deus e recobrei a coragem. Ajoelhei-me e confessei novamente ao Senhor os meus pecados, como já fizera antes. Então ela apareceu com seis jovens que eu já vira antes, aproximou-se de mim, ouviu-me rezando e confessando meus pecados ao Senhor. Ela me tocou e disse: Hermas, para de suplicar somente por teus pecados. Suplica também pela justiça, a fim de obter um tanto dela para a tua família. Então ela me levantou pela mão, levou-me até junto ao banco e disse aos jovens: Ide construir. Então os jovens se retiraram, deixando-nos sozinhos. Ela me disse: Senta aqui. Eu lhe respondi: Senhora, deixa que os presbíteros sentem primeiro. Ela replicou: Faze o que te digo: senta. Quis então sentar-me à direita; ela porém não me permitiu, e me faz sinal com a mão para sentar à esquerda. Eu estava pensativo e triste, porque ela não me permitira sentar à direita. Então ela me disse: “Estás triste, Hermas?” O lugar da direita está reservado para outros, para os que já agradaram ao Senhor e sofreram por causa do Nome. Ainda te falta muito para poderes sentar-te com eles. Contudo, persevera na tua simplicidade,
como fizeste até agora e sentarás ao lado deles e também com todos aqueles que farão o que eles fizeram e sofrerão o que eles sofreram.

CAPÍTULO 10
Eu lhe perguntei. O que é que sofreram? Ela me respondeu: Ouve: açoites, prisões, grandes tribulações, cruzes, feras, tudo por causa do Nome. E por isso que está reservado para eles o lado direito do santuário, a eles e a todo aquele que sofre por causa do Nome. Os outros ficam do lado esquerdo. Mas uns e outros, os que estiverem sentados à direita e os que estiverem à esquerda, gozam dos mesmos dons e das mesmas promessas. Os que estão sentados à direita, porém,
têm glória particular. Tu desejas sentar à direita com eles, mas teus defeitos são numerosos. Deverás ser purificado de teus defeitos, e todos aqueles que não tiverem duvidado serão purificados de todos os seus pecados cometidos até hoje. Depois de dizer isso, ela fez menção de ir embora. Lancei-me a seus pés, suplicando- lhe, pelo Senhor, que me concedesse a visão que ela me prometera. Ela, tomou de novo a minha mão, levantou-me e me fez sentar no banco à esquerda.
Ela também sentou, à direita. Depois, levantou um bastão brilhante, e me disse: Estás vendo uma coisa grande? Eu lhe respondi: Senhora, não estou vendo nada. Ela continuou: Não estás vendo diante de ti uma grande torre que está sendo construída sobre as águas, com pedras quadradas e brilhantes? Com efeito, ela estava sendo construída em forma quadrada pelos seis jovens que tinham vindo com ela. Outros milhares e milhares de homens carregavam as pedras, uns do
fundo da água, outros da terra, e as entregavam aos seis jovens, que as recebiam e construíam. Eles colocavam as pedras tiradas do fundo da água pois já eram lavradas e se ajustavam imediatamente na construção perfeitamente às outras pedras; ajustavam-se tão bem umas com as outras, que não se via nenhuma juntura, e a torre parecia construída como um só bloco. Das pedras trazidas da terra, umas eram rejeitadas e outras utilizadas; outras ainda eram quebradas e jogadas
longe da torre. Muitas outras pedras estavam no chão, ao redor do edifício. Não as utilizavam na construção, porque algumas estavam carcomidas, outras rachadas, outras mutiladas; outras ainda eram brancas e redondas e não se encaixavam na construção. Eu via também outras pedras jogadas longe da torre, caindo no caminho e, sem parar, rolando para lugares inacessíveis; outras caíam no fogo e queimavam, e outras ainda caíam perto da água mas não conseguiam rolar para dentro da água, embora desejassem rolar e entrar na água.

CAPÍTULO 11
Depois de me ter mostrado tudo isso, ela quis ir embora. Eu lhe disse: Senhora, que me serve ver essas coisas, se não sei o que significam? Ela me respondeu: Estou curioso para conhecer o que se refere à torre! Eu lhe disse: Sim, senhora, quero conhecer para anunciar aos irmãos e alegrá-los, para que, ouvindo isso, conheçam a Deus em toda a sua glória.Ela então me disse: Muitos ouvirão. Contudo, depois de ouvirem, uns se alegrarão e outros chorarão. Todavia, também estes últimos, se ouvirem e fizerem penitência, se alegrarão. Ouve, portanto, as parábolas da torre, pois eu vou te revelar tudo. Não me incomodes mais, pedindo-me revelação, pois essas revelações podem acabar. Tu, porém, não pararás de pedir revelações, pois és insaciável. A torre que viste em construção, sou eu mesma, a Igreja, que viste agora e antes. Pergunta o que desejas a respeito da torre: eu te revelarei, para que te alegres com os santos. Eu lhe pedi: Senhora, agora que me julgaste digno de todas as revelações, revela-me. Ela me disse: O que convém te revelar, será revelado. Basta que teu coração esteja voltado para Deus e não duvides de nada do que vires. Eu lhe perguntei: Senhora, por que a torre está construída sobre as águas? Ela respondeu: Já te disse que és curioso a respeito das Escrituras e pesquisas com cuidado. Pesquisando, encontras a verdade. Ouve porque a torre foi construída sobre as águas: é porque vossa vida foi salva pela água e ainda o será. A torre foi construída pela palavra do Nome todo-poderoso e
glorioso, e é sustentada pela força invisível do Senhor.

CAPÍTULO 12
Então continuei: Senhora, que coisa grande e admirável! Senhora, quem são os seis jovens que constroem? (Ela respondeu:) São os santos anjos de Deus, criados em primeiro lugar. O Senhor confiou-lhes toda a sua criação, para desenvolvê-la, construí-la e governá-la. É por meio deles que a construção da torre será terminada. (Perguntei:) E quem são os que carregam as pedras? (Ela respondeu): Também eles são anjos de Deus, mas os seis primeiros são superiores a eles. Quando a construção da torre estiver terminada, eles se alegrarão todos juntos ao redor dela, e glorificarão o Ser, por ela ter sido terminada. Eu lhe perguntei: Senhora, eu gostaria de conhecer o destino das pedras e qual o significado de cada uma delas. Ela me respondeu: Tu não és mais digno que os outros para que isso te seja revelado. Outros estão antes de ti e são melhores. É a eles que essas visões deveriam ser reveladas. Contudo, para que o nome do Senhor seja glorificado, tu recebeste e receberás ainda essas revelações, por causa dos que vacilam, dos que ficam se perguntando se tudo isso é real. Dize-lhes que tudo isso é ou não é
verdadeiro e que nada disso está fora da verdade. Tudo é firme, sólido e bem alicerçado.

CAPÍTULO 13
Ouve agora o que se refere às pedras que entram na construção. As pedras quadradas e brancas, que se ajustam bem entre si, são os apóstolos, os bispos, os doutores e os diáconos. Todos esses, caminhando segundo a santidade de Deus, desempenharam com pureza a santidade seu ministério de bispos, doutores e diáconos a serviço dos eleitos de Deus. Uns já morreram e outros ainda vivem. Estes são os que estiveram sempre de mútuo acordo, conservaram a paz entre si e se ouviram reciprocamente. É por isso que na construção da torre suas junturas se ajustavam bem. (Eu perguntei:) E quem são as pedras tiradas do fundo da água, que se colocam na construção e pelas suas junturas se ajustam bem às outras já colocadas? (Ela respondeu): São os que sofreram por causa do nome de Deus. (Eu continuei:) Senhora, quero saber também quem são as outras pedras tiradas da terra. Ela respondeu: As que entram na construção sem ser talhadas são os que o Senhor aprovou, porque andaram no caminho reto do Senhor e respeitaram perfeitamente seus mandamentos. (Continuei:) E quem são aquelas que eram levadas e postas na construção? (Ela respondeu): São os novatos na fé, porém fiéis. Os anjos os exortam a praticar o bem, e não se encontrou neles nenhum mal. (Perguntei ainda): E quem são aquelas que eram rejeitadas e jogadas fora? (Ela respondeu:) São aqueles que pecaram e que desejam fazer penitência. Por isso não foram jogados muito longe da torre. Se fizerem penitência, serão úteis para a construção. Aqueles que têm intenção de fazer penitência, caso façam penitência, ficarão firmes na fé, contanto que façam penitência agora, enquanto a torre ainda está em construção. Quando ela estiver terminada, não haverá mais lugar para eles: serão rejeitados, e só poderão permanecer perto da torre.

CAPÍTULO 14
Queres conhecer as pedras que são cortadas e jogadas para bem longe da torre? São os filhos da iniqüidade: têm fé hipócrita e nenhuma forma de maldade se afastou deles. É por isso que não alcançam a salvação. São inúteis para a construção, por causa de suas maldades. Foram, portanto, feitos em pedaços e jogados para longe pela ira do Senhor, pois eles o irritaram. Entre as outras que viste jogadas em grande número pelo chão, e que não entravam na construção, as comidas são aqueles que conheceram a verdade, mas não perseveraram nela, nem aderiram aos santos. Por isso, são inúteis. (Perguntei:) E quem são as pedras com rachaduras? (Ela respondeu:) São aqueles que nutrem rancor mútuo no coração, e não conservam a paz entre si. Assumem aparência de paz, mas, quando se separam, suas maldades persistem em seus corações: são essas as rachaduras dessas pedras. As pedras mutiladas são aqueles que têm fé e, no essencial, permanecem ligados à justiça, mas neles subsistem restos de iniqüidade. É por isso que elas estão mutiladas e não inteiras. (Eu perguntei:) Senhora e quem são as pedras brancas e redondas, que não se adaptam à construção? Ela me respondeu: Até quando serás ignorante e sem bom senso? Perguntarás tudo sem nada compreenderes por ti mesmo? São aqueles que têm fé, mas também conservam as riquezas deste mundo. Quando chega a tribulação, por causa de suas riquezas e negócios, eles renegam seu Senhor. Eu então lhe replico: Senhora, quando é que eles serão úteis para a construção? Ela me diz: Quando for aparada a riqueza que os domina, então serão úteis para Deus. A pedra redonda não pode se tornar quadrada se não for cortada e não perder algo de si. Do mesmo modo, os ricos deste mundo não poderão ser úteis ao Senhor, se suas riquezas não forem aparadas. Aprende contigo mesmo: enquanto eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e frutuoso para a vida. Tornai-vos úteis para Deus! Tu mesmo foste uma dessas pedras.

CAPÍTULO 15
As outras pedras que viste jogadas longe da torre, caindo no caminho e rolando daí para lugares inacessíveis, são aqueles que tiveram a fé, mas que, devido às suas dúvidas, abandonam o seu verdadeiro caminho. Eles acham que podem encontrar caminho melhor, se extraviam e se enveredam lamentavelmente, andando por lugares inacessíveis. As que caem no fogo e queimam são aqueles que se afastaram para sempre do Deus vivo, e não lhes acudiu à inteligência a ideia de fazerem penitência das paixões e das obras perversas que praticam. Queres saber quem são aquelas que caem junto da água, mas não conseguem rolar para dentro dela? São aqueles que ouviram a palavra de Deus e querem ser batizados em nome do Senhor. Contudo, quando tomam consciência da pureza que a verdade exige,
mudam de opinião e voltam novamente para seus desejos perversos. E assim ela terminou a explicação da torre. Sem escrúpulos, eu lhe perguntei se todas essas pedras rejeitadas e impróprias para a construção podiam fazer penitência e encontrar lugar na torre. Ela me respondeu: Elas podem fazer penitência, mas não podem se encaixar nessa torre. Elas se encaixarão em outro lugar muito menor e só depois que tiverem passado pelas provações da penitência e cumprido os dias necessários para expiar os seus pecados. São transportadas para outro lugar, porque participaram da palavra de justiça. Se refletirem sobre as obras perversas que cometeram, serão transportados das provações; se não refletirem, não serão salvos, e isso devido à dureza de seus corações.

CAPÍTULO 16
Quando terminei de a interrogar sobre todas essas coisas, ela me disse: Queres ver mais alguma coisa? Eu estava muito desejoso de ver, e fiquei deveras contente. Ela me olhou sorridente e perguntou: Vês sete mulheres ao redor da construção? Eu respondi: Sim, senhora. (Ela continuou:) A torre é sustentada por elas, por ordem do Senhor. Ouve agora as funções que elas desempenham. A primeira, de mãos fortes, se chama Fé. É por meio dela que os eleitos do Senhor são salvos. A segunda, que tem cinto e aspecto viril, chama-se Continência, e é filha da
Fé. Todo aquele que a segue é feliz durante a vida, porque se abstém de toda má ação, crendo que, por se abster de todo desejo perverso, herdará a vida eterna. (Eu então perguntei:) Senhora, e quem são as outras? (Ela continuou:) Elas são filhas uma da outra e se chamam Simplicidade, Ciência, Inocência, Santidade e Caridade. Portanto, se realizares todas as obras da mãe delas, viverás. Perguntei: Senhora, eu desejaria saber qual é o poder de cada uma delas. Ela respondeu:
Ouve quais são os poderes delas. Elas estão subordinadas umas às outras e seguem-se mutuamente, conforme são geradas. Da Fé nasce a Continência; da Continência, a Simplicidade; da Simplicidade, a Inocência; da Inocência, a Santidade; da Santidade, a Ciência; da Ciência, a Caridade. Suas obras são puras, santas e divinas. Quem quer que se torne seu servidor e tenha força para perseverar em suas obras, habitará na torre, junto com os santos de Deus. Perguntei-lhe ainda sobre os tempos, para saber se já havia chegado o fim. Ela, então, gritou em voz alta: Insensato, não vês que a torre ainda está em construção? Quando
estiver terminada, então chegará o fim. E ela será terminada logo. Não me perguntes mais nada. Basta a ti e aos santos lembrar-vos disso e renovar vossos espíritos. Mas não é somente para ti que tudo isso foi revelado: deves torná-lo conhecido
de todos, em três dias. Em primeiro lugar, és tu que deves refletir. Hermas, eu te ordeno repetir literalmente aos santos todas as palavras que te vou dizer, para que, depois de tê-las ouvido e observado, eles sejam purificados de seus pecados, e tu com eles.

CAPÍTULO 17
Filhos, escutai-me. Eu vos criei com toda a simplicidade, inocência e santidade, pela misericórdia do Senhor, o qual, gota a gota, fez cair sobre vós a justiça, para vos justificar e vos santificar de toda maldade e perversidade. Vós, porém, não quereis corrigir-vos de vossa maldade. Agora, portanto, escutai-me. Vivei em paz uns com os outros, cuidai uns dos outros e socorrei-vos mutuamente. Não vos aposseis, somente para vós, dos bens que Deus criou em abundância, mas reparti também com os necessitados. Alguns, de fato, pelo excesso no comer, acabam por enfraquecer o corpo e minar a saúde. Outros, que não têm o que comer, veem a saúde arruinada pela insuficiência de alimentos e o corpo se arruína. Essa intemperança é danosa para vós, para vós que possuís e não repartis com os necessitados. Vede o julgamento que está para vir. Vós que tendes muito, procurai os que têm fome, enquanto a torre não estiver terminada, porque, depois de terminada, ainda que quisésseis fazer o bem, não teríeis mais ocasião. Atenção, portanto, vós que vos orgulhais de vossas riquezas, para que os necessitados não gemam e o gemido deles chegue até o Senhor, e sejais excluídos, junto com vossos
bens, fora da porta da torre. Eu me dirijo agora aos chefes da Igreja e àqueles que ocupam os primeiros lugares. Não vos torneis semelhantes aos envenenadores. Eles levam seus venenos em frascos. Vós tendes vossa poção e veneno no coração. Estais endurecidos, recusais purificar vossos corações para temperar, com o coração puro, vosso pensamento na unidade, a fim de obter a misericórdia do grande Rei. Atenção, portanto, meus filhos, para que essas divisões não tirem a vossa vida. Como pretendeis instruir os eleitos do Senhor, se vós mesmos não tendes instrução? Instruí-vos, portanto, uns aos outros, e conservai a paz mútua, a fim de que também eu, apresentando-me alegre diante do Pai, possa falar favoravelmente a respeito de todos ao vosso Senhor.

CAPÍTULO 18
Quando ela terminou de falar comigo, chegaram os seis jovens encarregados da construção e a levaram para a torre. Outros quatro tomaram o banco e também o levaram para a torre. Não vi o rosto deles, pois estavam de costas. No momento
em que ela se retirava, eu lhe pedi que me explicasse as três formas sob as quais ela me aparecera. E ela me respondeu: É necessário que o perguntes a outro para que o revele a ti. Irmãos, eu a tinha visto, na primeira visão do ano anterior, muito idosa e sentada na poltrona. Na visão seguinte, ela estava com aspecto mais jovem, porém o corpo e os cabelos eram de idosa; ela me falava de pé e estava mais alegre do que antes. Por ocasião da terceira visão, ela era inteiramente jovem e muito bela; só os cabelos eram de idosa. Estava muito alegre e sentada num banco. Eu estava muito intrigado para compreender a revelação prometida sobre essas coisas. De noite, numa visão, vi a mulher idosa, que me disse: Toda pergunta exige humildade. Jejua, portanto, e obterás o que pedes ao Senhor. Jejuei então um dia e, nessa noite, me apareceu um jovem que me disse: Por que pedes continuamente revelações na oração? Atenção! Pedindo muito, podes prejudicar teu corpo. Bastam para ti essas revelações. Es capaz de suportar revelações mais fortes do que aquelas que já tiveste? Eu lhe respondi: Senhor, peço apenas a respeito das três formas da mulher idosa, para que a revelação fique completa. Ele me respondeu: Até quando sereis insensatos? O que vos torna insensatos é duvidar e não voltar o vosso coração para o Senhor. Eu lhe respondi novamente: É justamente por teu meio, Senhor, que conhecemos essas coisas.

CAPÍTULO 19
Ele me disse: Escuta o que estás procurando sobre as formas. Por que na primeira vez ela te apareceu idosa e sentada numa poltrona? Porque vosso espírito estava envelhecido, murcho e sem força, por causa de vossa fraqueza e dúvidas. Os velhos,
por não terem mais esperança de rejuvenescer, não esperam outra coisa senão a morte. Da mesma forma, enfraquecidos pelos negócios do mundo, vos tendes deixado levar pelo abatimento e não entregastes ao Senhor as vossas preocupações. Vosso coração se despedaçou e envelhecestes em meio às tristezas. (Eu disse:) Senhor, eu desejaria saber por que ela estava sentada numa poltrona. (Ele respondeu:) Porque toda pessoa fraca, por causa da fraqueza, é obrigada a sentar para reconfortar seu corpo débil. Esse é o sentido geral da primeira visão.

CAPÍTULO 20
Na segunda visão, tu a viste de pé, com aspecto mais jovem e mais alegre do que antes, mas com o corpo e os cabelos de idosa. Escuta a seguinte comparação: um idoso desesperançado por causa de sua fraqueza, e miséria, não espera mais nada, senão o último dia da sua vida. Caso, imprevistamente, lhe seja deixada uma herança, ao saber disso, ele levanta, alegra-se e recobra as forças. Ele não permanece deitado, mas põe-se de pé, e seu espírito, que estava consumido por seus sofrimentos anteriores, rejuvenesce; não fica sempre sentado, mas age virilmente. Igualmente acontece convosco, depois de ouvir a revelação que o Senhor vos fez. Ele teve compaixão de vós, vosso espírito rejuvenesceu e vós deixastes a fraqueza. A força voltou para vós e vos fortalecestes na fé. Vendo vossa força, o Senhor se alegrou e, por isso, vos mostrou a construção da torre. Ele ainda vos fará outras revelações, se de todo o coração estabelecerdes a paz entrevós.

CAPÍTULO 21
Na terceira visão, tu a viste mais jovem, bela, alegre, de aspecto encantador. E como pessoa triste que recebe boa notícia: imediatamente esquece suas tristezas anteriores. Ela só pensa nessa notícia que ouviu, retoma forças para o bem e, pela alegria que experimenta, seu espírito rejuvenesce. O mesmo acontece convosco: ao ver esses bens, vosso espírito rejuvenesceu. Tu a viste sentada no banco, em posição estável, pois o banco tem quatro pés e se mantém firme. O mundo também é sustentado por quatro elementos. Aqueles que fizerem penitência serão completamente rejuvenescidos e firmes, ao menos aqueles que tiverem feito penitência de todo o coração. Tu recebeste, assim, toda a revelação. Doravante, não peças mais nenhuma revelação. Se tiveres necessidade, a receberás.

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terça-feira, 4 de julho de 2017

17 - Pastor de Hermas (155) Introdução e Capítulos 1 ao 4

17
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Pastor de Hermas (155)
Introdução e Capítulos 1 ao 4

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Esta obra foi escrita em meados do segundo século por Hermas, entre 142 e 155 d.C.
Foi um dos escritos mais considerados da antiguidade cristã; por muito tempo, tida como inspirada, inclusive alguns a colocavam no Cânon do Novo Testamento.
As frequentes referências que se encontram dela em várias obras do período patrístico, demonstram a alta estima em que era tida.
A obra era muito usada no cristianismo primitivo para instruir aqueles que acabavam de entrar na Igreja e queriam ser instruídos na piedade, como podemos comprovar no início do século IV no testemunho de Eusébio (HE, III,3:6).
Após larga difusão, especialmente, no Oriente, nas Igrejas gregas, inspirado para uns, apenas útil para todos e até mesmo recusado por outros, o Pastor foi, definitivamente, colocado entre os apócrifos após o Concílio Ecumênico de Hipona em 393, onde a Igreja definiu o catálogo bíblico.
Trata-se de uma obra longa, com 114 capítulos dispostos em 3 partes: 5 visões, 12 mandamentos e 10 Parábolas.
A preocupação central de Hermas não é doutrinário-dogmática, mas moral.
Seu argumento principal é a necessidade de penitência (arrependiemtno) indo ao encontro da misericórdia divina.
A Eclesiologia em Hermas, domina a ideia de que a Igreja é uma instituição necessária para a salvação.
Quanto a Cristo, Hermas não emprega nenhuma vez, ao longo de sua obra, os termos Jesus Cristo, ou Logos. Chama-o de Salvador, Filho de Deus e Senhor.

Autor:
As evidências para o lugar e data desta obra residem na linguagem e na teologia da obra. As referências a Clemente de Roma sugerem uma data entre 88 e 97 d.C. para pelo menos a localização temporal das primeiras duas visões.
Uma vez que Paulo enviou saudações para um Hermas, um cristão de Roma (em Romanos 16:14), uma minoria concordou com a opinião de Orígenes de que ele era o autor desta alegoria religiosa. Porém, a crítica textual, a natureza da teologia e a aparentemente familiaridade do autor com o Apocalipse e outros textos joaninos, no permitem fixar a data da obra como sendo no século II d.C.
Três antigas testemunhas, uma das quais afirma ser contemporânea, declaram que Hermas era o irmão do Bispo de Roma Pio I, cujo episcopado aconteceu não antes de 140-155 d.C., o que corresponde ao período proposto por J.B. Lightfoot. São elas:
O Cânone Muratori, uma lista escrita em ca. 170 d.C. e que é o mais antigo cânon do Novo Testamento sobrevivente, identifica Hermas, o autor do Pastor, como sendo irmão do Bispo Pio I, bispo de Roma:
Mas Hermas escreveu O Pastor recentemente, no nosso tempo, na cidade de Roma, enquanto o bispo Pio, seu irmão, estava ocupando a cadeira da igreja da cidade de Roma. E, portanto, ele deve sim ser lido; mas ele não pode ser lido publicamente para o povo na igreja nem entre os Profetas, cujo número está completo, e nem entre os Apóstolos, pois ele foi escrito depois de seu tempo.

— Cânone Muratori.
Um poema escrito contra Marcião do século III ou IV d.C., por um autor adotando o nome e a persona de Tertuliano - conhecido como Pseudo-Tertuliano - afirma que "Então, após ele, Pio, cujo irmão carnal era Hermas, o pastor angélico, que contou as palavras que lhe foram dadas.".
Estas autoridades podem estar citando a mesma fonte, talvez Hegésipo cuja história da Igreja antiga, hoje perdida, foi uma das fontes para Eusébio. Como Pseudo-Tertuliano cita alguns detalhes desta lista que estão ausentes do Catálogo Liberiano, possivelmente ele tenha tido uma fonte independente.
O mais correto é dizer que Hermas foi irmão do Bispo Pio de Roma.

A Obra: O Pastor de Hermas

PRIMEIRA VISÃO

CAPÍTULO 1
Meu senhor me havia levado a Roma para me vender a uma certa Rosa. Vários anos depois, a revi e comecei a amá-la como irmã. Algum tempo depois, eu a vi tomando banho no Tibre, lhe estendi a mão e ajudei a sair do rio. Olhando sua beleza, pensava comigo mesmo: Eu seria muito feliz se tivesse mulher com essa beleza e caráter. Era a única coisa que eu pensava, sem ir além disso. Passado algum tempo, dirigindo-me para Cumas, refletia como são grandes, marcantes e poderosas as obras de Deus. Durante a viagem dormi. Então o espírito me arrebatou e me conduziu através de um caminho impraticável, por onde ninguém podia andar. O lugar era escarpado, todo cortado por águas. Atravessei o rio que aí havia e, chegando à planície, me ajoelhei e comecei a rezar a Deus, confessando-lhe meus pecados. Durante minha oração, o céu se abriu e vi aquela mulher que havia desejado. Do céu, ela me saudou: Bom dia, Hermas. Olhei para ela e falei: Senhora, que fazes aí? Ela me respondeu: Fui transportada para denunciar ao Senhor os teus pecados. Eu disse: Então, agora és a minha acusadora? Ela respondeu: Não! Ouve as palavras que te vou dizer: Deus, que habita nos céus, que do nada criou os seres, que os multiplicou e os fez crescer em vista da sua santa Igreja, está irritado contigo, porque cometeste falta contra mim. Então eu lhe respondi nestes termos: Cometi falta contra ti? Em que lugar e quando, alguma vez te dirigi palavra desonrosa? Por acaso, não te considerei sempre como deusa? Por acaso, não te tratei sempre como irmã? Mulher, por que me acusas falsamente de maldade e impureza? Sorrindo, ela me disse: O desejo da maldade entrou no teu coração. Não te parece que, para um homem justo, é prejudicial ter no coração o desejo da maldade? É falta, e grande, porque o homem justo tem pensamentos justos. E mediante esses pensamentos justos que ele aumenta sua glória nos céus e faz que o Senhor lhe seja indulgente para com todos os seus atos. Aqueles, porém, que são maus no coração, só atraem para si morte, e prisão, sobretudo aqueles que passam esta vida se vangloriando de suas riquezas e não se interessam pelos bens futuros. As almas deles se arrependerão, daqueles que, não tendo esperança, se desesperaram de si mesmos e da própria vida. Quanto a ti, reza a Deus. Ele curará teus pecados e os pecados de toda a tua família e de todos os santos.

CAPÍTULO 2
Quando ela terminou de dizer essas palavras, os céus se fecharam e eu fiquei tremendo e triste. Dizia a mim mesmo: Se o pecado está escrito contra mim, como poderei alcançar a salvação? Como aplacarei a Deus pelos meus pecados realmente cometidos? Com que palavras pedirei ao Senhor que me seja favorável? Essas eram minhas reflexões e hesitações, quando vi diante de mim uma poltrona forrada de lã branca como a neve, e grande. Então surgiu uma senhora idosa, com vestes resplandecentes, e um livro nas mãos. Ela sentou-se e me saudou: Bom dia, Hermas. Triste, respondi chorando; Bom dia, senhora. Ela então me Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Joel 2:9) www.monergismo.com 3 disse: Por que essa de tristeza, Hermas? Tu, que és paciente, calmo e sempre sorridente, por que estás abatido dessa maneira e sem alegria? Eu respondi: É porque uma excelente mulher diz que cometi contra ela uma falta. Então ela continuou: Para um servo de Deus não se trata do ato em si mesmo. Mas certamente o desejo a respeito dela entrou no teu coração. Para os servos de Deus, intenção desse tipo conduz ao pecado. Para o espírito muito santo e já provado, intenção má, desejar má ação é de se espantar, sobretudo tratando-se do casto Hermas, que se abstém de todo mau desejo, que é pleno de perfeita simplicidade e grande inocência.

CAPÍTULO 3
Entretanto, não é por isso que Deus está irritado contigo, mas porque teus filhos agem mal diante do Senhor e de vós, seus pais, que os mantendes. De fato, amas teus filhos e não os corriges. Ao contrário, deixas que eles se corrompam terrivelmente. É por isso que o Senhor está irritado contigo. Mas ele vai curar todos os males que atingiram tua família, pois é por causa dos pecados e faltas deles que estás arruinado em teus negócios temporais. A grande misericórdia do Senhor teve compaixão de ti e de tua família; ele te fortalecerá e te estabelecerá na sua glória. Quanto a ti, apenas não desanimes: tem coragem e fortalece a tua família. O ferreiro, com o martelo, consegue o objeto que ele quer; da mesma forma, a palavra justa de cada dia consegue superar qualquer iniquidade. Portanto, não cesses de corrigir teus filhos. Eu sei que, se eles fizerem penitência do fundo do coração, serão inscritos nos livros da vida com os santos. Quando terminou de falar, ela ainda me perguntou: Queres ouvir a leitura? Respondi: Quero sim, senhora. Ela continuou: Presta atenção e escuta os louvores de Deus. Eu ouvi coisas sublimes e admiráveis, que não consegui guardar. Todas essas palavras causam arrepios e o homem não é capaz de alcançar. Entretanto, lembro-me das últimas palavras, pois eram do nosso alcance e doces: Vê! O Deus das Potestades, aquele que com seu poder invisível e superior e grande inteligência criou o mundo; que por sua gloriosa vontade revestiu de graças as suas criaturas; que por sua palavra poderosa fixou o céu e assentou a terra sobre as águas; que por sua sabedoria e previdência criou a santa Igreja e também a abençoou; esse mesmo Deus desloca os céus e as montanhas, as colinas e os mares, que se tornam uma coisa única para os eleitos dele. Assim, ele cumpre na sua glória e a alegria, a promessa que fez para eles, se ao menos observarem os mandamentos do Senhor, que receberam com grande fé.


CAPÍTULO 4
Quando ela terminou de ler e se levantou da poltrona, chegaram quatro jovens que, levando a poltrona, foram embora, em direção ao Oriente. Então ela me chamou, tocou no meu peito e disse: Gostou da minha leitura? Respondi: Senhora, as últimas palavras me agradam, mas as anteriores são penosas e duras. Ela ainda falava comigo, quando apareceram dois homens, a tomaram pelos braços e Monergismo.com – “Ao Senhor pertence a salvação” (Joel 2:9) www.monergismo.com 4 se foram, na mesma direção da poltrona, para o lado do Oriente. Quando estava para partir, o ar dela era alegre e, ao se retirar, me disse: Sê homem, Hermas.


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domingo, 25 de junho de 2017

Estudo 16 - Martírio de Policarpo de Esmirna

16
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Policarpo de Esmirna (69-155)
Martírio de Policarpo de Esmirna

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Provável autoria – Comunidade de Esmirna

Por volta do ano 400, um autor anônimo se faz passar pelo sacerdote Piônio de Esmirna (morto em 250), escreve uma vida de Policarpo. Embora totalmente lendário, insere nela o texto completo, autêntico, da carta da Igreja de Esmirna endereçada à Igreja de Filomélio, relatando o martírio de Policarpo. Trata-se de um texto, no gênero literário epistolar, escrito logo depois da morte de Policarpo (+- 150 d.C), endereçado à Igreja de Filomélio. Este é o primeiro texto cristão que descreve o martírio, e também o primeiro a usar este título de "mártir" para designar um cristão morto pela fé. O texto parece ter sofrido influências de narrações semelhantes do judaísmo de II e III Macabeus. Por sua vez, influenciou o desenvolvimento deste gênero literário entre os cristãos, o que fez Renan declarar: "Este belo trecho constitui o mais antigo exemplo conhecido das Atas de martírio. Foi o modelo que se imitou e que forneceu a marcha e as partes essenciais destas espécies de composições". De fato, parece ser um texto tão importante que leva J. Lebreton a afirmar: "O historiador das origens da religião cristã não poderia desejar um texto mais autorizado". H. Delehaye destaca o valor histórico deste documento afirmando: "É o mais antigo documento hagiográfico que possuímos e não há uma só voz para dizer que existe outro mais belo. Basta relê-lo e pesar cada frase para se persuadir de que esta narração é a que pretende ser a relação de um contemporâneo que conheceu o mártir, o viu no meio das chamas, tocou com suas mãos os restos do santo corpo". É o segundo texto mais antigo que se verifica o uso da expressão "Igreja católica" pelos cristãos primitivos. O Capítulo 20 nos informa que esta "narração sumária" foi redigida por certo Marcião, um irmão da igreja de Esmirna. O copista que transcreveu a carta foi Evaristo. É de fato, um sumário, se se pensa nos onze mártires que precederam Policarpo.

MARTÍRIO DE POLICARPO DE ESMIRNA
A Igreja de Deus que vive como estrangeira em Esmirna, para a Igreja de Deus que vive como estrangeira em Filomélio e para todas as comunidades da santa Igreja católica que vivem como estrangeira em todos os lugares. Que a misericórdia, a paz e o amor de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo sejam abundantes.

CAPÍTULO I 1. Irmãos, nós vos escrevemos a respeito dos mártires e do bem-aventurado Policarpo, que fez a perseguição cessar, selando-a com seu martírio. Quase todos os acontecimentos se realizaram para que o Senhor nos mostrasse novamente um martírio segundo o Evangelho. 2. De fato, como o Senhor, ele esperou ser libertado, para que também nós nos tornássemos seus imitadores, não olhando só para nós, mas também para o próximo. É próprio do amor verdadeiro e firme querer salvar não só a si mesmo, mas também a todos os irmãos.

CAPÍTULO II 1. Felizes e generosos todos os mártires que surgem segundo a vontade de Deus. De fato, é necessário que tenhamos fé, para atribuir a Deus o poder sobre todas as coisas. 2. Quem não admiraria a generosidade deles, a perseverança e o amor ao Senhor? Dilacerados pelos flagelos a ponto de ser ver a constituição do corpo até as veias e artérias, permaneciam firmes, enquanto os presentes choravam de compaixão. A sua coragem chegou a tal ponto que nenhum deles disse uma palavra ou emitiu um gemido. Eles mostravam em seus corpos, mas que o Senhor, aí presente, conservava com eles. 3. Atentos à graça de Cristo, eles desprezavam as torturas deste mundo e adquiriram, em uma hora, a vida eterna. O fogo dos torturadores desumanos era frio para eles. De fato, tinham diante dos olhos escapar do (fogo) eterno, que jamais se extingue; com os olhos do coração olhavam os bens reservados à perseverança, bens que o ouvido não ouviu, nem o olho viu, nem o coração do homem sonhou, mostrados pelo Senhor àqueles que não que não eram mais homens, mas que já eram anjos. 4. Do mesmo modo, os que foram entregues às feras suportaram suplícios terríveis. Estendidos sobre conchas, eram submetidos a todo tipo de tormentos, para que fossem induzidos a renegar, se possível, por meio do suplício contínuo.

CAPÍTULO III 1. O diabo maquinava muitas coisas contra eles; graças a Deus, porém, não prevaleceu contra nenhum deles. O generoso Germânico fortalecia a timidez deles através de sua perseverança. Ele foi admirável na luta contra as feras. O procônsul queria que ele cedesse e lhe dizia que tivesse piedade de sua própria juventude. Ele, porém, atiçando a fera, a chamava para si, desejando estar quanto antes livre desta vida injusta e iníqua. 2. Então, a multidão toda, admirada diante da coragem da piedosa e crente geração dos cristãos, gritou: "Abaixo os ateus! Trazei Policarpo."

CAPÍTULO IV 1. Um dentre eles, chamado Quinto, frígio recentemente vindo da Frígia, ficou apavorado à vista das feras. Era ele que havia forçado a si mesmo e a outros e a comparecerem ao tribunal. O procônsul, através de muita insistência, conseguiu persuadi-lo a jurar e sacrificar. Por isso, irmãos, não louvamos aqueles que se apresentam espontaneamente, pois não é isso que o Evangelho ensina.

CAPÍTULO V 1. Quanto a Policarpo, ele inicialmente não se perturbou ao ouvir isso, mas quis permanecer na cidade. A maioria, porém, o persuadiu a se afastar. Então ele se refugiou numa propriedade pequena, não longe da cidade, e passou o tempo com poucos (companheiros). Noite e dia, ele não fazia senão rezar por todos e por todas as igrejas do mundo, como era seu costume. 2. Rezando, ele teve uma visão, três dias antes de o prenderem: viu seu travesseiro queimado pelo fogo. Voltando-se para os seus companheiros, disse: "Devo ser queimado vivo!".

CAPÍTULO VI 1. Como persistiam em procurá-lo, transferiu-se para outra pequena propriedade, e logo chegaram os que o procuravam. Não o encontrando, prenderam dois pequenos escravos, e um deles torturado confessou. Era-lhe, de fato, impossível permanecer escondido, porque até mesmo os de sua casa o traíram. O chefe da polícia, que tinha recebido o nome de Herodes, tinha pressa em levá-lo para o estádio, a fim de que Policarpo realizasse o seu destino, entrando em comunhão com Cristo, enquanto aqueles que o tinham entregue recebessem o castigo do próprio Judas.

CAPÍTULO VII 1. Numa sexta-feira, pela honra da ceia, guardas e cavaleiros, armados como de costume, tomaram consigo o escravo e partiram, como se estivessem perseguindo um bandido. Chegando pela noite, encontraram-no deitado num pequeno quarto do piso superior. Ele podia ainda fugir daí para outro lugar, mas não quis, e disse: "Seja feita a vontade de Deus". 2. Ouvindo que tinham chegado, ele desceu e conversou com eles, que ficaram espantados com a sua idade venerada, com a sua calma, e com tanta preocupação por capturar um homem tão velho. Ele imediatamente mandou que lhes dessem de comer e beber à vontade, e pediu que lhe concedessem uma hora para rezar tranqüilamente. 3. E lhe concederam. Então ele, de pé, começou a rezar, tão repleto da graça de Deus, que por duas horas ninguém pôde interrompê-lo. Os que ouviam ficaram espantados, e muitos se arrependeram de ter vindo prender um velho tão santo.

CAPÍTULO VIII 1. Quando por fim terminou de rezar, lembrou-se de todos aqueles que tinha conhecido, pequenos e grandes, ilustres e obscuros, e de toda a Igreja Católica espalhada por toda a terra. Chegando a hora de partir, fizeram-no montar sobre um jumento e o levaram para a cidade. Era o dia do grande sábado. 2. Herodes, o chefe da polícia, e seu pai Nicetas foram até ele. Fizeram-no subir ao seu carro e, sentando-se ao seu lado, procuravam persuadi-lo, dizendo: "Que mal há em dizer que César é o Senhor, oferecer sacrifícios e fazer tudo o mais para salvarse?" De início, ele nada respondeu. Como insistissem, ele falou: "Não farei o que vós estais me aconselhando." 3. Não conseguindo persuadi-lo, lançaram-lhe todo tipo de injúrias, e o fizeram descer do carro tão apressadamente que ele se feriu na parte da frente da perna. Sem se voltar, como se nada houvesse acontecido, ele caminhou alegremente em direção ao estádio. Aí o tumulto era tão grande que ninguém conseguia escutar ninguém.

CAPÍTULO IX 1. Quando Policarpo entrou no estádio, veio do céu uma voz, dizendo: "Sê forte, Policarpo! Sê homem!" Ninguém viu quem tinha falado, mas alguns dos nossos que estavam presentes ouviram a voz. Finalmente o fizeram entrar e, quando souberam que Policarpo fora preso, levantou-se grande tumulto. 2. Levado até o procônsul, este lhe perguntou se ele era Policarpo. Respondeu que sim. E o procônsul procurava fazê-lo renegar, dizendo: "Pensa na tua idade", e tudo o mais que se costumava dizer, como: "Jura pela fortuna de César! Muda teu modo de pensar e dize: 'Abaixo os ateus!'" Policarpo, contudo, olhava severamente toda a multidão de pagãos cruéis no estádio, fez um gesto para ela com a mão suspirou, elevou os olhos e disse: "Abaixo os ateus!" 3. O chefe da polícia insistia: "Jura, e eu te liberto. Amaldiçoa o Cristo!" Policarpo respondeu: "Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?"

CAPÍTULO X 1. Ele continuava a insistir, dizendo: "Jura pela fortuna de César!" Policarpo respondeu: "Se tu pensas que vou jurar pela fortuna de César, como dizes, e finges ignorar quem sou eu, escuta claramente: eu sou cristão. Se queres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me um dia e escuta." O procônsul respondeu: "Convence o povo!" 2. Policarpo replicou: "A ti eu considero digno de escutar a explicação. Com efeito, aprendemos a tratar as autoridades e os poderes estabelecidos por Deus com o respeito devido, contanto que isso não nos prejudique. Quanto a esses outros, eu não os considero dignos, para me defender diante deles."

CAPÍTULO XI 1. O procônsul disse: "Eu tenho feras, e te entregarei a elas, se não mudares de idéia." Ele disse: "Pode chamá-las. Para nós, é impossível mudar de idéia, a fim de passar do melhor para o pior; mas é bom mudar, para passar do mal à justiça." 2. O procônsul insistiu: "Já que desprezas as feras, eu te farei queimar no fogo, se não mudares de idéia." Policarpo respondeu-lhe: "Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado para os ímpios. Mas por que tardar? Vai e faze o queres."

CAPÍTULO XII 1. Dizendo isso e tantas outras coisas, ele permanecia cheio de força e alegria, e seu rosto estava repleto de graça. Ele não só não se deixou abater pelas ameaças que lhe eram dirigidas, mas o próprio procônsul ficou estupefato e mandou seu arauto ao meio do estádio, para anunciar três vezes: "Policarpo se declarou cristão!" 2. A essas palavras do arauto, toda a multidão de pagão e judeus moradores de Esmirna, com furor incontido, começou a gritar: "Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nosso deuses! É ele que ensina muita gente a não sacrificar e a não adorar." Dizendo isso, gritavam e pediam ao asiarca Filipe que lançasse um leão contra Policarpo. Este respondeu que não lhe era lícito, pois os combates de feras já haviam terminado. 3. Então unânimes se puseram a gritar que Policarpo fosse queimado vivo. Devia cumprir a visão que lhe fora mostrada: enquanto rezava, ele tinha visto o travesseiro pegando fogo, e dissera profeticamente aos fiéis que estavam com ele: "Devo ser queimado vivo."

CAPÍTULO XIII 1. Então as coisas caminharam rapidamente, mais depressa do que dizê-las. Imediatamente a multidão começou a recolher lenha e feixes tirados das oficinas e termas. Sobretudo os judeus se deram a isso com mais zelo, segundo o costume deles. 2. Quando a pira ficou pronta, o próprio Policarpo se despiu, desamarrou o cinto, e ele mesmo tirou o calçado. Ele nunca fizera isso antes, porque sempre cada um dos fiéis se apressava a ser o primeiro a tocar-lhe o corpo; mesmo antes do martírio, ele já fora constantemente venerado pela sua santidade de vida. 3. Imediatamente colocaram em torno dele o material preparado para a pira. Como queriam pregá-lo, ele disse: "Deixai-me assim. Aquele que me concede força para suportar o fogo, dar-me-á força para permanecer imóvel na fogueira, também sem proteção de vosso pregos."

CAPÍTULO XIV 1. Então não o pregaram, mas o amarraram. com suas mãos amarradas atrás das costas, ele parecia um cordeiro escolhido de grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado para Deus. Erguendo os olhos ao céu, disse: "Senhor, Deus todo-poderoso, Pai de teu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual recebemos o conhecimento do teu nome, Deus dos anjos, dos poderes de toda criação, e de toda geração de justos que vivem na tua presença! 2. Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Com eles, possa eu hoje ser admitido à tua presença como sacrifício gordo e agradável, como tu preparaste e manifestaste de antemão, e como realizaste, ó Deus sem mentira e veraz. 3. Por isso e por todas as outras coisas, eu te louvo, te bendigo, te glorifico, pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja dada a glória a ti, como ele o Espírito, agora e pelos séculos futuros. Amém.

CAPÍTULO XV 1. Quando ele ergueu o seu Amém e terminou sua oração, os homens da pira acenderam o fogo. Grande chama brilhou e nós vimos o prodígio, nós a quem foi dado ver e que fomos preservados para anunciar estes acontecimentos a outros. 2. O fogo fez uma espécie de abóbada, como vela de navio inflada pelo vento, e envolveu como parede o corpo do mártir. Ele estava no meio, não como carne que queima, mas como pão que assa, como ouro ou prata brilhando na fornalha. Sentimos então um perfume semelhante a baforada de incenso ou outro aroma parecido.

CAPÍTULO XVI 1. Por fim, vendo que o fogo não podia consumir o seu corpo, os ímpios ordenaram ao carrasco que fosse dar o golpe de misericórdia com o punhal. Feito isso, jorrou tanto sangue que apagou o fogo. Toda a multidão admirou-se de ver tão grande diferença entre os incrédulos e os eleitos. 2. Entre estes, o admirável mártir Policarpo, que foi, em nosso dias, mestre apostólico e profético, o bispo da Igreja católica de Esmirna. Toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.

CAPÍTULO XVII 1. Contudo, o invejoso, o perverso e o mau, o adversário da geração dos justos, vendo a grandeza do seu testemunho e de sua vida irrepreensível desde o início, vendo-o ornado com a coroa da incorruptibilidade e conquistando uma recompensa incontestável, procurou impedir-nos de levar o corpo, embora muitos de nós o desejassem fazer e possuir sua carne santa. 2. Ele sugeriu a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, que procurasse o magistrado, a fim que ele não nos entregasse o corpo. Ele disse: "Não aconteça que eles, abandonando o crucificado, passem a cultuar esse aí." Dizia essas coisas por sugestão insistente dos judeus, que nos tinham vigiado quando queríamos retirar o corpo do fogo. Ignoravam eles que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestarmos culto a outro. 3. Nós o adoramos, porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com o rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!

CAPÍTULO XVIII 1. Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. 2. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente. 3. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.

CAPÍTULO XIX 1. Essa é a história do bem-aventurado Policarpo, que foi, juntamente com os irmãos da Filadélfia, o décimo segundo a sofrer o martírio em Esmirna. Contudo, apenas dele se guarda a lembrança mais do que dos outros, a ponto de até os próprios pagãos falarem dele por toda parte. Ele foi, não apenas mestre célebre, mas também mártir eminente, cujo martírio segundo o Evangelho de Cristo todos desejam imitar. Por sua perseverança, ele triunfou sobre o iníquo magistrado, e assim foi cingido com a coroa da incorruptibilidade. Juntamente com os apóstolos e todos os justos, na alegria, ele glorifica a Deus, Pai todo-poderoso, e bendiz nosso Senhor Jesus Cristo, o salvador de nossas almas, guia de nossos corpos, e pastor da Igreja católica no mundo inteiro.

CAPÍTULO XX 1. Havíeis pedido para ser informados com mais pormenores sobre esses acontecimentos. Por enquanto vos demos uma narração resumida por intermédio do nosso irmão Marcião. Quando tomardes conhecimento desta carta, transmiti-a aos irmão que estão mais longe, para que também eles glorifiquem o Senhor, que fez sua escolha entre seus servidores. 2. Àquele que, pela sua graça e pelo seu dom, nos pode introduzir no seu reino eterno, por seu Filho único Jesus Cristo, a ele a glória, a honra, o poder e a grandeza pelos séculos. Saudai todos os santos. Aqueles que estão conosco vos saúdam, e também Evaristo, que escreveu esta carta, com toda a sua família.

CAPÍTULO XXI 1. O bem-aventurado Policarpo deu testemunho no início do mês Xântico, no décimo segundo dia, o sétimo dia antes das calendas de março, dia do grande sábado, na oitava hora. Ele fora preso por Herodes, sob o pontificado de Filipe de Trália e do proconsulado de Estácio Quadrato, mas sob o reino eterno de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada a glória, a honra, a grandeza, o trono eterno de geração em geração Amém.

CAPÍTULO XXII (Apêndice) 1. Nós vos desejamos boa saúde. Irmãos, andai segundo o Evangelho, na palavra de Jesus Cristo. Com ele, glória a Deus Pai e ao Espírito Santo, para a salvação dso santos eleitos. Foi assim que o bem-aventurado Policarpo testemunhou. Possamos nós caminhar em suas pegadas e sermos encontrados com ele no Reino de Deus. 2. Gaio transcreveu estas coisas de Ireneu, discípulo de Policarpo; ele viveu com Ireneu. Eu, Sócrates, as copiei em Corinto, da cópia de Gaio. A graça esteja com todos. 3. Por minha vez, eu, Piônio, copiei do exemplar acima, que procurei, depois que o bem-aventurado Policarpo o mostrou a mim em revelação, como contarei em seguida. Reuni os fragmentos quase destruídos pelo tempo. Que o Senhor Jesus Cristo me reúna também com seus eleitos no Reino do céu. A ele seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém. Apêndice do manuscrito de Moscou: 1. Gaio copiou essas coisas dos escritos de Ireneu; ele viveu com Ireneu, que foi discípulo de Policarpo. 2. Esse Ireneu, que esteve em Roma na época do martírio do bispo Policarpo, instruiu muita gente. Temos dele numerosos escritos muito belos e ortodoxos. Ele mencionou Policarpo, dizendo que tinha sido discípulo dele. Refutou vigorosamente todas as heresias e nos transmitiu a regra eclesiástica e católica, tal como havia recebido do santo. 3. Ele diz também o seguinte: Marcião, do qual provém aqueles que se chamam marcionitas, certo dia, indo ao encontro de são Policarpo, lhe diz: "Reconhece-nos, Policarpo!" Este respondeu a Marcião: "Eu reconheço, reconheço o primogênito de satanás." 4. Lê-se também o seguinte nos escritos de Ireneu: No dia e na hora em que Policarpo sofria o martírio em Esmirna, Ireneu, encontrando-se em Roma, ouviu uma voz parecida com trombeta que dizia: "Policarpo foi martirizado." 5. Como foi dito, é dos escritos de Ireneu que Gaio copiou essas coisas. Em Corinto, Isócrates transcreveu da cópia de Gaio. E eu, Piônio, copiei do exemplar de Isócrates, que procurei, depois de uma revelação de sao Policarpo. Reuni os fragmentos quase destruídos pelo tempo. Que o Senhor Jesus Cristo me reúna também com seus eleitos na glória do céu. A ele seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.


Pergunta ao Grupo:
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